terça-feira, 8 de novembro de 2011

A minha primeira Maratona


Tudo começou em meados de Maio com a decisão de me inscrever na prova rainha das corridas de fundo. Tinha começado a correr em 2002 mas nunca levei a corrida muito a sério até há cerca de um ano.

Com a inscrição na Maratona do Porto iniciei algum trabalho de pesquisa que visava responder a uma pergunta básica: como é que alguém que está longe de ser um atleta dotado, se prepara para correr 42,2km.

Li muitas dicas, planos de treino, alimentação, equipamento, etc. Passei seguramente muitas horas a ler tudo o que encontrei.

De tudo o que li houve duas frases que me deixaram uma marca muito profunda no meu percurso de preparação. São:

• Quando passares a marca da Meia Maratona tens que te sentir muito bem. Faz o que fizeres na primeira metade da Maratona, mas quando chegares à meia tens que estar ‘fresquinho que nem uma alface’.  

• Quando chegares às 20milhas (32km) chegaste a meio da prova. Obviamente não chegaste a meio do percurso, mas chegaste a meio do cansaço e do desgaste físico e emocional. Os últimos 10km custam tanto como os 30 iniciais.

Com estas frases a ecoarem na minha cabeça decidi traçar um plano modesto e pouco ambicioso (se já não é ambicioso querer correr uma maratona).

Decidi então que iria manter um passo confortável que me permitisse ter um ritmo cardíaco também confortável e sem qualquer objectivo temporal.

Apontei para durante a prova nunca ultrapassar os 75% do meu ritmo cardíaco máximo, ou seja manter-me abaixo dos 145 batimentos por minuto.

Fiz o ‘reverse engineering’ da coisa, subi para cima duma passadeira, e procurei descobrir qual a velocidade que correspondia ao ritmo cardíaco pretendido.

O resultado foi: 6min/km. Ou seja, a esta velocidade estaria seguramente abaixo das 145 batidas por minuto e chegaria à meta com 04h13m. Nada que envergonhasse um estreante na distância.

A partir daqui procurei que todos os meus longões fossem sempre feitos a este passo. Tentei ensinar o corpo (e a mente) a correr a este ritmo (mesmo para mim é um ritmo lento).

Acabei por encontrar algumas informações úteis sobre como correr de forma eficiente. Descobri por exemplo que a velocidade de um corredor é igual ao número de passos que esse corredor dá por minuto, multiplicado pelo comprimento desses passos. Parece óbvio! Mas o mais interessante consiste em tentar responder à seguinte pergunta: para correr mais depressa é mais eficiente aumentar o número de passos ou o seu comprimento?

Ora, os estudos dizem que anatomicamente o ser humano está capacitado para correr confortavelmente distâncias de longo curso a um ritmo de 180/190 passos por minuto. Este número aplica-se tanto a corredores amadores como a corredores profissionais, sendo que 180 passos por minuto é para a maioria dos mortais o ponto óptimo da eficiência para correr corrida de longo curso, i.e. onde se gasta menos energia para correr à maior velocidade possível.

Conclusão, aquilo que separa qualquer um de nós do Haile Gebreselassie (Luís Ferreira, tu já estás neste campeonato) não deve ser o número de passos que damos por minuto mas sim o comprimento desses passos.

Voltei a subir para uma passadeira e durante 30seg contei quantas vezes o meu pé direito bateu no chão a várias velocidades. Os resultados foram intrigantes. Estava a correr a 160 passos por minuto. Havia assim uma vantagem em procurar aproximar-se dos 180 passos. Procurei fazê-lo e hoje corro de forma mais eficiente a 170 passos. Não o faço necessariamente mais rápido, mas faço-o gastando menos energia.

Voltando à Maratona do Porto.

As coisas correram razoavelmente conforme planeado.

Procurei manter-me hidratado e comecei a beber logo no início da prova, muito antes de sentir sede (aliás, foi tanta a quantidade de líquidos ingerida que nunca cheguei a sentir propriamente sede).

Mantive-me no passo pretendido, talvez um pouco mais rápido nos primeiros 15km devido à ligeira descida.

Aos 10km o meu ritmo cardíaco estava nos 130. Óptimo portanto.

À passagem da meia maratona com 2h02m mantinha-me abaixo dos 140 e já sonhava com a chegada abaixo das 4h10m, talvez mesmo perto das 4h05m. Sentia-me tão livre e solto que julgava que tinha a corrida controlada.

À passagem do km32 começam os primeiros sinais de fadiga. Comecei a temer bater no ‘muro’. Parecia incrível! Há 10km atrás sentia-me lindamente e à passagem das 20minhas sentia-me desgastado.

Como tinha feito longões de 36km sabia que tinha a obrigação de contrariar a fadiga e seguir em frente. O ‘muro’ não me venceria.

E assim fiz.

Chegou o km38 e já não tinha ‘força nas canetas’. Cada vez que punha o pé no chão tinha micro-cãibras que me provocavam dores incríveis nos quadricipes e nos gémeos.

Foi ao km38 que a prova se tornou mental. Correr passou a ser algo apenas possível porque a mente ‘gritava’ para não parar. Durante os últimos 4km repetia (muitas vezes em voz alta) uma espécie de ‘mantra’ do tipo: ‘Não pares. Não podes parar agora. Tá quase.’

Sabia que tinha batido no muro. Tinha-lhe acertado em cheio. O muro, o inexorável muro, afinal estava lá à minha espera.

Mas estava determinado em não deixar-me vencer. O muro não me venceria!

Devo confessar-vos que estes últimos 4km foram arrasadores do ponto de vista emocional.

Cortar a meta da nossa primeira Maratona é uma sensação indescritível. De repente, todas as dores, todo o ‘mantra’, as ladainhas, o sofrimento, tudo isto desaparece por breves segundos em que uma descarga de adrenalina nos acorda para a vida. Durante breves instantes sentimos uma alegria imensa que nos percorre o corpo todo.

Cruzei a meta com 4h13m53s. Exactamente o tempo que me tinha proposto fazer.

Ainda na carpete vermelha depois da linha de chegada ajoelhei-me exausto. Recordei a minha mãe desaparecida em 2010 aos 68 anos após 7 anos de luta heróica contra uma doença generativa do sistema nervoso. Agradeci-lhe toda a força que me deu pensar no seu exemplo.

Hoje começaram os treinos para a próxima Maratona.

Run 4 fun, 
Luís Correia

15 comentários:

Nuno Tempera disse...

Os meus sinceros parabéns pelo teu esforço e alcançar esse objectivo, com uma descrição de todo o processo magnifica. Talvez para o ano eu me sinta com forças para a minha 1ª. Parabéns e que depois desta venham as próximas.

Fernando Andrade. disse...

Excelente relato.
Gostei muito de toda a emoção colocada no texto.
Parabéns.
FA

46 disse...

Parabéns pelo resultado, força de vontade e estratégia seguida.

AC

Joao Fialho disse...

Obrigado Luís pelo teu relato, da preparação e da prova.

Tomos temos objectivos individuais, mas a descrição da tua superação, do teu sacrifício e sofrimento foi elevado pela tua motivação intrínseca e pela dedicação a uma pessoa muito especial e única na tua vida.
Obrigado por partilhares connosco todas estas emoções.

Emocionante, e inspirador!

Nuno Sentieiro Marques disse...

Amigo Luís,
Depois de ler o Teu texto, vou-me limitar a agradecer a partilha e a dar-te os parabéns.
Conseguiste emocionar-me e dar-me ainda mais motivação para o dia 4 de Dezembro, além de teres passado mais algumas dicas muito interessantes...só espero que quando o "meu muro" chegar tenha a mesma capacidade e força emocional que tiveste.

Runabraços

Nota : Talvez a Tua próxima seja também a minha segunda.

José Magalhães disse...

Luis

Muito obrigado pelo teu relato.
Realmente nos longões que já fiz sinto que ainda falta algo para acabar bem.
Excelente descrição e uma ajuda para os que como eu se vão estrear em Dezembro.
Obrigado

João Ralha disse...

Emocionante, principalmente a última parte do teu relato.

E muito racional o modo como preparaste e correste a tua 1ª maratona.

O que sentiste na parte final é aquilo a que chamamos o 2º fôlego, uma força adicional que nos é dada pelo fato de sentirmos que o objectivo está quase conseguido.

Parabéns e continua pois a seguir vem a barreira das 4 horas. Está à esquina. :)

Runabraços

Teodoro Trindade disse...

Obrigado Luis pelo magnifico relato e por partilhares conosco esta vivência.
Para mim foi um prazer ter-te "acompanhado" nesta prova.
Muitos parabéns pelo resultado alcançado.
TT

Francisco Sanches Osório disse...

Caro Luís,

Antes dos parabéns e de mandar um grande abraço, quero agradece a partilha da tua experiência e todas emoções. São palavras como as tuas que me demonstram como é importante ouvir e entender os sinais que sentimos e ter a certeza que só tenho de provar a mim mesmo que sou capaz! E, finalmente, agradecer a todos os que me suportam e me inspiram a ser melhor todos os dias!

OBRIGADO e até breve!

Ndda disse...

Parabéns Luis Correia,

Notável a forma como preparas-te a prova, de facto estavas muito bem preparado a todos os níveis!

A maratona é uma prova de resistência, força mas sobretudo de Inteligência!

Julgo que apesar de não teres baixado as 4h05, foi um prova muito bem gerida sendo a primeira e quase tudo correu conforme planeado sob um plano realista.

A primeira maratona além do nos levar a patamares emocionais muito altos, traz-nos recordações que não se apagarão da memória e que ajudas-te a recordar.

Muito Obrigado pela emocionante partilha.

Tal como dizes: começou no Domingo a preparação para a próxima.

RunAbraço e até breve,
NDA

Franco Wudich disse...

Luís, depois de ler este emocionante relato , com os detalhes não só técnicos mas principalmente emocionais, quero te agradecer por ter-me despertado para enfrentar este desafio. Tenho plena consciência que ainda é muito cedo para eu pensar numa Maratona, mas conseguiste me inspirar e fazer com que um dos meus objectivos pessoais para o ano de 2012 seja participar de uma maratona. Parabéns pelo tempo, pela preparação e pela emoção.
Grande abraço.

Jorge Paulo disse...

Parabéns pelo impressionante texto, não só a descrição técnica da prova como a descrição emocional.
Vou tentar fazer a minha primeira maratona no dia 4 de Dezembro em Lisboa, e certamente vou-me lembrar deste teu relato que me irá ajudar a superar o tal “muro” que todos tememos.
Obrigado pela partilha, e pelos ensinamentos descritos no teu relato.
RunAbraços.

Jorge Duarte Pinheiro disse...

Um abraço, Luís. Muitos parabéns pela prova! Obrigado pelo relato, que contém elementos importantes.

Carlos Melo disse...

Parabéns Luís pelo resultado!

Elucidativo e emocionante relato da preparação e da prova.
Neste momento sabes algo mais para preparar a próxima e obter um melhor tempo.

RunAbraços.

Luis Matos Ferreira disse...

Excelente crónica Luís!

Muito equilibrada nas suas vertentes científica e factual e de descrição de uma experiência pessoal muito motivadora.
E muitos parabéns por teres concluído com exíto o percurso que leva de um atleta ocasional até um maratonista.
Esta será a primeira de muitas!

Um abraço