segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A minha 1ª Maratona

E chegou o grande dia...

Um dia que cheguei a afirmar peremptoriamente a alguns (Eduardo, João, Paulo), que andam neste grupo desde o início (2008), que nunca iria chegar, pois jamais me atreveria a empreender tamanha tarefa. O tempo encarregou-se de dizer que eu estava errado.

Um dia que acabou por ser de extremos e de surpresas como se viria a demonstrar: por um lado, a prova em que sofri mais até hoje, por outro, a prova em que senti mais companheirismo e entre-ajuda, com uma palavra de amizade muito especial para o Tiago Ribeiro, meu companheiro ao longo de toda a prova.

Depois de 18 semanas de treino, cumprido o melhor possível (umas vezes melhor, outras pior) e não obstante uma arreliadora gripe que me atacou nos últimos dias (já é sina, quando se aproximam grandes provas) chegou este domingo magnífico com uma temperatura quase ideal e com muito pouco vento.

Tinha preparado uma pequena surpresa que consistiu na estampagem na camisola antiga da mensagem "A minha 1ª maratona 4-12-2011" que foi utilizada pela última vez e que permanecerá como uma recordação deste dia memorável. À conta desta camisola fui várias vezes incentivado ao longo de todo o percurso pelos companheiros atletas que correram connosco esta prova.

Já sabia que o Tiago pretendia fazer a prova ao ritmo de 6 min/km, por isso combinei com ele partirmos juntos e irmos gerindo a corrida da melhor forma possível. Afinal, o nosso objectivo era chegar ao fim, se possível com um tempo razoável. Na partida esteve connosco o José Magalhães que ainda nos acompanhou no primeiro quilómetro mas que depois seguiu o seu ritmo.

A primeira metade correu bem, apenas na José Malhoa/AAA fizemos um quilómetro mais lento, tendo cumprido o nosso objectivo de tempo ao fazermos 2h 05m à meia maratona (ligeiramente melhor que o nosso objectivo).

No Cais do Sodré lá estava o Miguel Correia (obrigado Miguel! És o companheiro de sempre!) à nossa espera para me passar os mantimentos para o resto da prova. Houve ali uma ligeira atrapalhação com as garrafas que nos fez perder algum tempo mas lá seguimos em bom ritmo até aos 25 km.

Aí, quando os músculos das pernas começavam a pesar, tivemos o incentivo do Eduardo Correia e restante grupo que nos deram ânimo para ir dar a volta a Algés e fazer os primeiros 30 km sempre a correr. "Já só faltam 12 km" dizia o Eduardo mas agora a dor nos músculos era intensa e tivemos mesmo que andar pela 1ª vez logo após o reabastecimento de Belém.

As pernas pesavam, e apesar de os pulmões estarem com vontade de ir mais além, os músculos das pernas reclamavam e não queriam obedecer. Lá continuámos, ora correndo, ora andando, ora puxando eu, ora puxando o Tiago, passámos pela Fernanda Marques na estação de Alcântara-Mar e, já acompanhados pelo Zé Nogueira, amigo que costuma correr connosco algumas provas (e com quem, à custa dele, bati um PBT dos 10 km) chegámos finalmente ao Cais do Sodré onde o Miguel Correia e o Gerardo continuavam à nossa espera.

Aí entrávamos em "território desconhecido" ao atingir os 36 km. Subimos a Rua da Prata e atravessámos a Praça da Figueira de forma penosa chegando ao obstáculo final: a Almirante Reis. Começámos a andar. Fazia frio e estávamos a arrefecer nitidamente. Os mantimentos já se tinham acabado e agora estávamos por nossa conta.

Chegados ao Banco de Portugal (Febo Moniz) digo ao Tiago: Não vamos fazer a Almirante Reis toda a andar, toca a correr! O que fizemos até aos 39 km da Alameda, deixando para trás o Zé Nogueira, e sendo acompanhados pelo Luis Dinis, amigo que também fazia a sua 1ª maratona, vindo do Luxemburgo. Aí chegados, pergunto ao Tiago quanto tempo levamos já de corrida. 4h 23m. Vamos acabar antes das 4h 45m, disse-lhe.

E assim foi. Chegados ao Areeiro retomámos a corrida para não mais parar até à meta num passo que, se calhar, não era propriamente de corrida e em crescendo de dor. Confesso que quando entrei, novamente, na Rio de Janeiro me vieram as lágrimas aos olhos num misto de alegria e sofrimento pois sabia que o objectivo já não nos escapava. O Tiago puxou por mim para fazer os derradeiros metros.

Ainda antes da entrada no estádio, foi comovente ver o filho do Tiago correr para os braços do pai para o abraçar. São daqueles momentos que uma pessoa não esquece.

Esperei pelo Tiago e cortámos a meta abraçados.

O importante era acabar. Objectivo cumprido! O tempo feito (4h 42m, média 6m42s/km) foi o menos relevante. Isso ficará para a próxima. Sim, porque haverá próxima...

18 comentários:

Nuno Sentieiro Marques disse...

Obrigado Victor pela partilha emocionante e fantástica.

O Teu relato está muito completo e muito bom a todos os níveis.

Assim sendo, fico-me pelo agradecimento e pelos parabéns.

Runabraços

nemagiev disse...

Parabens...relato bem explicito do sofrimento mas principalmente do prazer e compeinheirismo com que vos vimos terminar a prova

Paulo Marcos disse...

Caro Vítor, amigo, companheiro de faculdade e parceiro corredor, o teu relato é por demais eloquente daquilo que o ser humano consegue fazer com preparação, força de vontade, razoabilidade e determinação.

Run 4 Fun ubber alles!

Cesar Moreira disse...

Muitos parabéns Vítor o mais difícil já passou, agora é pensar na próxima Maratona pois a partir de hoje és um maratonista.

RunAbraço

Tiago Ribeiro disse...

Boas Vitor,
excelente descrição dos momentos vividos por nós. De inicio até ao fim fomos uma dupla que se tornou única para o resto da vida, é algo que nos vai marcar para sempre. Excelente companheiro, amigo que me apoiou em toda esta maratona. Foi uma experiência única que só quem passa por ela sabe o valor e significado dos valores da vida. Um grande abraço

João Ralha disse...

É nas dificuldades que se forjam as grandes amizades.

Quando estamos determinados a conseguir um objetivo pelo qual trabalhámos e sofremos muito e temos a sorte de encontrar companhia com a qual partilhar as nossas dificuldades, tudo se torna menos difícil.

Eu não me esqueço, Vítor, que tu foste um dos companheiros que ajudaste outros na sua 1ª Maratona, em 2009. Tiveste agora e já tens tido outras vezes, a retribuição do teu companheirismo.

Emocionante a descrição da tua alegria, ao completares a Maratona.

Parabéns e venha a seguinte........

Runabraços

46 disse...

Vitor, parabéns pela superação e pela ideia da camisola.

A tua experiência reflecte a que quase todos passamos.

Muitos parabéns,

AC

Jorge Esteves disse...

Parabéns Vítor!

Valorizamos mais as coisas que nos custam e então quando partilhadas são realmente inesquecíveis!

Runabraços

Rui Veloso Ralha disse...

Formidável feito que o teu pungente relato faz entender. A Maratona não tem nada de fácil, mas, "querer é poder". Bravo Vitor

Manuel Romano disse...

Parabéns Vitor.
Um grande relato que demonstra bem que mesmo nas grandes dificuldades conseguimos ir buscar energia onde menos se espera. Grande ideia a camisola.

Franco Wudich disse...

Caro Victor, lembro muito bem dos últimos km's da minha primeira Meia-Maratona, quando encostaste ao meu lado e me incentivaste a continuar a correr, com todo aquele calor que fazia naquele dia. São destes momentos de companheirismo e ajuda mútua que fazem com que nunca mais nos esqueçamos. Parabéns amigo por esta grande conquista e para o ano, quando talvez eu encare este desafio, faremos juntos o último km novamente.

RunAbraço.

Franco Wudich.

Orlando Ferreira disse...

Parabéns pelo resultado e pela descrição.
São os momentos de maior dificuldade que nos dão mais força para continuar.
Em relação à tua camisola... excelente forma de perpétuar este feito e certamente que a irás ver e mostrar muitas vezes.
(a minha foto é exactamente do final da minha 1ª maratona... foi em 2007... mas eu não me esqueço)

José Magalhães disse...

Vitor muitos parabens. Como alguem diz por aqui "sem sofrimento não há glória". Grande relato. Para a próxima será melhor e mais folgada.

José Magalhães disse...

Vitor muitos parabens. Como alguem diz por aqui "sem sofrimento não há glória". Grande relato. Para a próxima será melhor e mais folgada.

Ndda disse...

Muitos Parabéns Vitor.

Conjuntamente com o Tiago, fizeram uma grande dupla de sacrificio, esforço continuo de 4h e 45m, que não é para qualquer um.

Com sabedoria e algum coração chegas-te á meta triunfador.

Que Grande Aventura e grande final.

Até á próxima,

RunAbraço

Carlos Melo disse...

Muitos Parabéns Vitor! O "salto" da Meia Maratona para a Maratona é uma etapa que não é fácil. A ansiedade que antecede a estreia na Maratona e a própria prova é uma etapa pessoalmente marcante.

Agora com este feito vencido, é melhor começar já a preparar a próxima.

RunAbraços.

Jorge Duarte Pinheiro disse...

Bravo, Vítor! Passaste além da dor.
Runabraços

Teodoro Trindade disse...

Obrigado Vitor, bonita crónica de uma prova inesquecivel. Todos sentimos a vossa emoção ao cortar a meta ... Parabéns maratonista.
Que venha a próxima.