segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

XXVIII Maratón Ciudad de Sevilla

Às 5h30 de uma madrugada bem fresca, um Taxi amarelo deixou-me  debaixo do viaduto do Campo Grande. Dei uma voltinha por ali, tentando localizar o ponto onde o autocarro fretado pela colectividade desportiva “A Real Academia” me apanharia para dar início à longa viagem até Sevilha. Às 5h40 liguei para o meu amigo Carlos Silva, que já se encontrava em frente às roullotes, e juntei-me a ele. Com ele encontravam-se mais alguns atletas que também se preparavam para encetar a viagem até ao local da Maratona. Ali estivémos em amena cavaqueira durante algum tempo e começámos a estranhar a camioneta nunca mais aparecer, visto que a hora combinada para nos encontrarmos ali eram as 5h45. Como o autocarro vinha de Mem Martins, fomos supondo que alguem se teria atrasado e como estavamos na companhia de outros atletas, pareceu-nos que havia que aguardar com paciência. Por volta das 6h15 surgiu enfim um autocarro e nós corremos a acercarmo-nos dele. No entanto, já depois de estarmos confortavelmente sentados lá dentro (!), descobrimos que se tratava do autocarro de “O Mundo da Corrida” e não aquele que tão ansiosamente aguardávamos!

Liguei para o nosso companheiro do Run 4 Fun, o Renato Velez, que se encontrava em Setúbal, o local seguinte de paragem. O autocarro já lá se encontrava, pois aparentemente tinha passado pelo Campo Grande cerca das 5h35 e ninguém verificou se nós teriamos embarcado. Felizmente o Renato falou com a organização que se prontificou a esperar por nós enquanto o Carlos conduzia velozmente o seu automóvel até Setubal (ressalvo que a organização se portou sempre impecávelmente connosco).

E foi assim que começou, com um equivoco digno de um filme cómico, uma animada, divertida e cheia de peripécias, viagem até Sevilha.

O autocarro ia cheio com muitas das simpáticas habituais presenças nestes eventos, animados como sempre.

Chegámos cerca das 14h30 locais e fomos logo levantar os dorsais ao estádio olimpico. Depois fomos almoçar as massas do costume e fizemos o check-in no Hotel.  Eu e o grupinho de Setúbal ocupámos dois quartos duplos: eu, o Gonçalo e o Vítor num, e o Renato, o Rui e o Hélder noutro. Posso-vos dizer que foi uma tarde muito animada, na galhofa com esta malta divertida.

Para o jantar, em lugar de massa com molho, resolvi variar e comer molho com massa. Deitei-me cedo e cedo adormeci, pois não sofro da “angústia do guarda-redes antes do penalti.”

A meio da noite mais uma peripécia: tive que me levantar e, que ideia peregrina!, para não acordar os companheiros resolvi não acender a luz e usar o telemóvel como lanterna. Assim que entro na casa de banho, o telemóvel, como que movido por vontade própria, escapa-se-me das mãos e zás, com infalível pontaria, acerta em cheio na sanita.

Mas mais vale passar um véu sobre este acontecimento desagradável e basta dizer que era o único despertador que eu possuia comigo e assim fiquei dependente da wake-up call da recepção, que felizmente não falhou, pontualmente às 7h30 locais.

O resto da malta já tinha partido no autocarro para o estádio, mas nós os 6, mais o Gustavo, tínhamos combinado apanhar um taxi para não sermos obrigados a acordar às 6h da madrugada. Foi uma boa estratégia pois às 8h45 já lá estávamos, no estádio, equipados e prontos para deixar os sacos com a muda de roupa. Estava uma manhã fresca, mas solarenga e que ameaçava aquecer.


Às 9h30 tinha conseguido um lugar excelente, na linha da partida, mesmo atrás do balão das 3h00. Às 9h31 é dado o “tiro de partida” e arrancamos à desfilada por ali fora, espicaçados pelo medo de sermos atropelados no túnel de saída do estádio.

É agora o momento de fazer um flashback para o início de Janeiro. Em Janeiro inscrevi-me no Centro de Treino de “O Mundo da Corrida” no Jamor, com o intuíto de ter um acompanhamento mais profissional e um plano de treinos estruturado.  As primeiras 4 semanas foram passadas a preparar o II Ultra-Trilhos dos Abutres, e sobrou pouco tempo para preparar a Maratona de Sevilha. No entanto os treinos de séries e de força, foram sem dúvida importantes para melhorar a minha capacidade física.

O meu objectivo expresso para esta corrida situava-se nas 2h55, o que constituiria uma melhoria de alguns minutos em relação ao resultado alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa (2:57’58’’).

Fim de flashback. Saí do estádio no encalço do balão, que já era seguido por um grupo muito numeroso. Pouco depois juntou-se a mim o Carlos, correndo descontraído, apesar da lesão contraída recentemente no joelho. Dois ou três quilómetros depois passa por nós o Eduardo Santos, em grande ritmo. Seguimos o balão durante os primeiros 11 kms, pois prosseguia a um ritmo de cerca de 4’07’’/km, o que me permitiria atíngir o objectivo. Contudo os encontrões permanentes, as dificuldades nos abastecimentos e a necessidade de fazer as curvas pelo lado de fora, fizeram-me sentir a necessidade de acelerar e deixar este magote para trás.

Assim avançámos e seguimos os dois sózinhos. Fui ingerindo géis de 5 em 5 km, com a preocupação de manter um nível permanente de energia facilmente mobilizável. Verifiquei constantemente o ritmo cardíaco para confirmar o meu nível de esforço.  Nos primeiro 15 kms rondou os 150 bpm, ou seja, um ritmo muito confortavel.

Passámos à meia-maratona em 1:28’16’’ com boas perpectivas de cumprir o objectivo. Pouco depois, cruzei-me com o João, a Luísa Ralha e a Cristina Caldeira, que iam acompanhar os últimos kms de alguns companheiros Run 4 Fun.

Infelizmente por volta do 26º Km o Carlos teve de abrandar, para não massacrar mais a lesão. Eu continuei em muito bom ritmo até ao 35º Km. O ritmo cardíaco aguentou-se abaixo dos 157 bpm até este ponto.

 A partir daí tive que baixar o ritmo para os 4’16’’/km e depois para 4’20’’/km (o cardíaco foi subindo paulatinamente até aos 160 bpm). O objectivo esfumou-se numa miragem inatingível. As pernas ameaçavam ceder a qualquer momento. Estava a chegar ao limite e eu sabia-o.

Só nos últimos 2 quilómetros é que, acicatado pela próximidade do estádio e pela iminência de nem sequer conseguir melhorar o meu PBT, me atrelei a um compatriota que passou por mim e lá acelerei buscando as restantes forças, onde quer que elas se encontrassem.  Fiz o último km abaixo dos 4’00’’/km e dei o tudo por tudo no tartan do estádio. Na recta final conseguia ver os segundos a passarem no mostrador electrónico: 2:57’54’’...55’’...56’’...57’’ e já está!!!!!


A temperatura fresca e o percurso plano conjugaram-se para criar as condições propícias ao quebrar de recordes pessoais. No meu caso, proporcionaram-me uma melhoria à lá Sergey Bubka (salvo as óbvias diferenças): melhorei precisamente um segundo em relação ao meu Personal Best Time (PBT) oficial, alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa!



Depois revi a malta e fui tomar banho nas instalações do estádio. Juntei-me ao Gonçalo e fomos beber umas cervejas “isotónica” geladinhas.

A malta foi terminando a corrida e juntando-se em redor do autocarro. Iríamos todos juntos almoçar mais uma pratada de massa (acabou por ser paella), na Isla Magica.

E mais uma peripécia se desenrolou ante os meus incrédulos olhos. Na comitiva tinha vindo um senhor mais idoso e invisual, que correu acompanhado por um guia. Entretanto já tinham chegado todos os retardatários e nada de chegar este último par. Começámos a ficar compreensivelmente preocupados, sobretudo quando as 5 horas limite para o encerramento do percurso se completaram.

Lá decidimos ir almoçar, enquanto o Álvaro, da Real Academia, encetava demarches para descobrir do seu paradeiro.

Almocei na alegre companhia do grupo laranjinha, Run 4 Fun, cujos membros se encontravam bastante satisfeitos por mais uma aventura completada com sucesso.

Depois do almoço fomos ver se já havia novidades. Nada! Já havia sido contactada a organização da prova, os hospitais, a polícia e ninguém sabia de nada. Parecia que duas pessoas, uma envergando um dorsal e outra uma indicação fluorescente com a palavra “Guia” tinham desaparecido da face da terra! Eu pensaria que um tal par constituiria uma visão que se destacaria um pouco mais que um elefante cor-de-rosa numa reunião dos alcoólicos anónimos...

Já se conjecturava de tudo. Desidratação, ataque cardíaco, etc, etc (houve até alguém que aventou a hipótese delirante de eles se terem zangado um com o outro...). Mas claro que a verdadeira explicação, que estava prestes a ser revelada, é sempre simultaneamente mais simples e mais fantástica do que qualquer conjectura.

Finalmente lá chegaram os dois, entregues pela organização da Maratona.

O que é que tinha acontecido?

A verdade é que chegados cerca do 32º km foram abordados pela organização, que lhes deu duas opções: ou eram recolhidos naquele ponto ou então seguiam por sua conta e risco, pois a maratona tinha sido encerrada. Temerariamente, resolveram seguir, procurando a marcação azul no chão, mas rapidamente se perderam e acabaram por percorrer bem mais do que os 42 kms. O que é certo é que, numa notável demostração de persistência e determinação, lá conseguiram chegar à meta, no estádio, onde foram então recolhidos pela organização.

Por fim, lá arrancámos com destino a Lisboa, onde chegámos já depois das 22h. O Carlos teve a amabilidade de me levar até casa, onde cheguei cansado mas muito satisfeito por um fim-de-semana bastante agitado e divertido. É desta matéria que são feitas as histórias que hei-de contar aos meus netos, quando os tiver (se não estiver nessa altura muito aterefado a gerar novas histórias noutras aventuras desportivas).

19 comentários:

Manuel Romano disse...

Parabéns Luis, uma vez mais uma excelente prestação.

Gerardo Atienza disse...

Temos escritor!!!! Os dedos deslizam pelo teclado como os tenis pelo asfalto. Parabéns

Goncalo Fontes de Melo disse...

Caro Luis,
Obrigado pelo relato das tuas peripécias em Sevilla. E mais uma fantástica prova! Parabéns. Abraço.

Maria João Coutinho Rebelo disse...

Luís,
Já me ri um bom bocado!
Parabéns pela história e pelo tempo e obrigada pela partilha!!!

46 disse...

Luís,

mais um magnifico relato para uma prova de igual calibre.

Pelo que contas, foi de facto uma aventura e pêras.

Abraço,

AC

Nuno Sentieiro Marques disse...

Amigo Luís,
O relato e prestação ao nível habitual, ou seja Runtásticos.

1 Segundo é um Segundo, e ao teu nível, um segundo é uma eternidade.

Muitos parabéns uma vez mais, és uma inspiração como atleta e ser humano para muitos de nós, bem-hajas.

Runabraços

Nota : que viagem...já me ri com as diversas peripécias e a força de vontade dos dois "locos que Corren" é uma inspiração magnifica.

Ndda disse...

Grande Luis,

A performance foi excecional mas o post dá-lhe 1 segundo...

Muito bom


Alguém disse: 'O tempo é o melhor Juiz de todas as coisas.' por 1 seg se ganha por um se perde !

Mais uma vez demonstra-te a fibra de campeão !

Muita consistência, querer e trabalho.

Parabéns Luis Matos Ferreira és uma inspiração.

RunAbraço,
NDA

Orlando Ferreira disse...

Muitos e muitos Parabéns Luís.
Certamente que ficarias desiludido se fizesses 1s a mais que em Lisboa; assim sendo, terás que ficar muito orgulhoso e satisfeito por teres feito PBT... independentemente de ser apenas 1s... foi novamente PBT.
E quanto às situações ocorridas extra corrida... elas servem para nos dar ainda mais prazer ao ler os teus relatos.
Continua a inspirar-nos sff. Obrigado.

Eduardo Correia disse...

Luis, mais uma vez um grande abraço de parabéns .
Excelente relato e prova!
Runabraço
EC

Luis Correia disse...

Humildade, carácter e determinação.
Luís, és um tipo fantástico.

José Magalhães disse...

Luis
Excelente prova e relato. Acho que é isto que nos faz correr em grupo. O companheirismo.
Nas devidas porpoções, também senti os cotovelos e as passagens por fora. Mas valeu a pena.
Grande atleta.

José Magalhães disse...

Luis
Excelente prova e relato. Acho que é isto que nos faz correr em grupo. O companheirismo.
Nas devidas porpoções, também senti os cotovelos e as passagens por fora. Mas valeu a pena.
Grande atleta.

Francisco Sanches Osório disse...

...muitos parabéns Luis!! Obrigado pela tua partilha que é sempre fonte de ensinamentos para mim que ainda não fiz nenhuma!
Grande abraço

João Ralha disse...

Luís,

És mesmo uma fonte de inspiração:O comentário do Gerardo é sublime....

És tão bom corredor como escritor. O Murakami que se cuide.

Só há uma coisa a dizer.... continua, por favor, a correr e a fazer os teus inspirados relatos.

E parabéns por mais um PBT.

Runabraço

Ze Carlos disse...

Grande Luís! mais um PBT para a longa colecção de grandes marcas.

Muitos parabéns!

Zé Carlos Santos

Teodoro Trindade disse...

Muitos parabéns Luis.
Apesar de todos os contratempos tudo acabou bem, e com mais uma fantástica marca.
Obrigado pelo excelente relato.
Abraço.
TT

Carlos Melo disse...

Muitos Parabéns Luís!
Um novo PBT "à espanhola" dum atleta extraordinário!

Excelente relato da viagem e da prova.

Agora há que continuares a preparação do teu Mega programa para 2012, que fiquei cansado só de ler.

Força... o Mont Blanc está ali á espera.
RunAbraços.

Miguel San-Payo disse...

Fantástico. Não me ocorrem mais comentários pois já todos disseram o que eu queria.
Muitos parabéns.

Jorge Duarte Pinheiro disse...

Bravo, Luís! Bela prova e bela corrida no campo da escrita.
Runabraços