segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Maratón de Sevilla. Mucho más que correr!

Venga, venga campeón.

Esta é provavelmente a frase que mais se ouviu gritar pela multidão que saiu às ruas para aplaudir e puxar pelos 7150 atletas que correram hoje (ontem) a Maratona de Sevilha. Uma verdadeira festa da cidade. E foi também a frase que repeti para mim próprio vezes sem conta durante a parte final da prova, quando as dificuldades começaram a surgir.

Sevilha é uma velha conhecida minha, desde que a visitei pela primeira vez em 1992 para ver a grande Exposição Universal comemorativa dos 500 anos da viagem de Cristóvão Colombo. Desde então não me canso de lá voltar, nem que seja de passagem para algum destino balnear na costa espanhola. É uma cidade fantástica, cheia de cor e de vida, e que sempre tem algo de novo para nos oferecer. Não é que precisasse, mas agora passei a ter mais um motivo para regressar.

O dia estava excelente para correr. A temperatura oscilou entre seis e doze graus, mas o sol brilhou durante grande parte do percurso, sem que nunca se sentisse muito frio ou muito calor. Apenas o calor humano da população, que contagiava todos os particpantes na prova.

Depois de vencer o trânsito e as longas filas para o depósito dos sacos com a muda de roupa para o almoço, eu o João Veiga dirigimo-nos para a partida já muito em cima da hora. Mas o João saia de outra "caixa", e de repente vi-me obrigado a largar sózinho na minha maratona de estréia, o que aumentou ainda mais a minha ansiedade.

Felizmente estive pouco tempo sózinho, porque poucos metros depois da largada avistei o Alfredo Falcão e o seu amigo Fernando, com quem aliás tinha combinado arrancar. Seguimos juntos até ao km 13, altura em que o Alfredo resolveu abrandar o ritmo. Segui assim com o Fernando, que também se estava a estrear, até metada da prova. Vinhamos então num ritmo médio de 5m17s, demasiado forte para a distância da prova, pelo que "larguei" o Fernando e deixei-me ficar ligeiramente para trás. Não voltei a ver o Fernando, que ao que sei fez uma estreia de luxo, abaixo das 4 horas.

Ainda assim mantive um bom ritmo, na casa do 5m20s, quando fui surpeendido ao km 26 pela presença nas minhas costas do João Veiga, que entretanto se tinha deixado ficar para trás para experimentar uma das muitas casas de banho que organização disponibilizou a cada cinco quilómetros. O João vinha a outro ritmo, pelo que poucos metros depois ele voltou a descolar. Mas deixou-se novamente ultrapassar por mim ao km 32, quando sentiu os primeiros sinais de cansaço e começou a caminhar. Nessa altura eu vinha francamente bem, ainda surpreendido pela excelente marca de 2h41m que tinha registado ao km 30.Nessa altura ainda não sabia o que me esperava ...

Senti as primeiras dificuldades no ponto mais bonito de toda a prova, quando entramos no Parque Maria Luísa por entre um corredor de gente entusiasta, para contornar o magnífico Pavilhão de Espanha da Exposição Universal de 1929. Foi aí na Praça de Espanha, um pouco antes do km 34, que dei os meus primeiros passos desde que a prova se tinha iniciado, e logo a seguir ao abastecimento do km 35 choquei de frente com "o Muro". Ele afinal existe. Tive cãimbras horríveis nos gémeos das duas pernas, mais fortes na perna direita, cujos músculos superiores estavam também muito inchados. Parecia que eles queriam saltar para fora do corpo, como que a dizer que estavam fartos de correr e queriam voltar para casa. Mas não tiveram a sorte daqueles jogadores de Monopólio a quem sai a carta que lhes permite ir diretamente para a casa da partida sem passar pela prisão. Eu estava decidido a levá-los comigo até à meta passando por todas as casas.

Entre o km 35 e o km 40 andei quase tanto como corri, parando a espaços para alongar os músculos. Fui novamente ultrapassado pelo João Veiga, logo no Km 36, e por centenas de outros corredores que vinham no seu ritmo cadenciado. Mas também ultrapassei dezenas de outros ainda em pior estado do que eu. Quando atravessavamos o bonito Parque do Alamillo, já novamente na ilha da Cartuxa, avistei de frente o Estádio Olímpico, e percebi que tinha de me compor e recomeçar a correr normalmente para acabar a minha prova de estreia condignamente. Ao meu lado seguia um ciclista que me incentivava uma vez mais: Venga, venga campeón. Solo unos metros más y está terminada! E assim foi, ainda que esses metros fossem na verdade mais de dois quilómetros. 

Quando entrei no túnel do Estádio Olímpico, esqueci-me das pernas e consegui fazer os últimos 200 metros num sprint a 4m/km. Foi um momento emocionante. Senti-me um verdadeiro Carlos Lopes a entrar no Estádio Olímpico de Los Angeles. Enquanto dava a volta ao estádio fui ovacionado pelo muito público presente, em especial pelo Paulo e pela Maria, que estavam pelo menos há 45 minutos à minha espera :-). E ainda antes de cortar a meta avistei o João Veiga que recuperava o folego do seu sprint final para baixar das 4 horas. Mais tarde cruzamo-nos com o José Carlos Melo, com quem também estivemos no almoço de "clausura". Só não voltei a encontrar o Alfredo Falcão, que sentiu dificuldades e chegou mais tarde, tendo arrancado diretamente do estádio para Lisboa.

Foi uma prova fantástica, de que obviamente não me vou esquecer. É verdade que até ao km 30 vinha com um tempo de sonho, para baixar das 4 horas, e talvez até das 3h50m, mas como bem me avisaram o Teodoro e o Orlando, a Maratona é uma prova de 12km, que só começa ali. 

Não creio que tenha pago o preço de ter corrido muito depressa os 30km inicias. Ou pelo menos não creio que esse ritmo tenha sido o principal responsável pela quebra. Se tivesse vindo mais devagar, provavelmente teria tido os mesmos problemas musculares ao fim de três horas, onde quer que estivesse, até porque, se descontarmos as cãimbras, a minha condição física geral era muito boa. Até então vinha bastante confortável e não posso dizer que tenha chegado demasiado cansado. Até deu para sprintar :-). Além do mais, foi o ritmo inicial que me permitiu - apesar as dificuldades - fazer um tempo final de 4h04m42s, que é excelente para uma estreia. Conseguir manter esse ritmo durante tanto tempo também me dá o estímulo necessário para continuar a treinar e a correr mais por novos objetivos.

A Maratona é realmente uma prova de 12 km que começa no Km 30. Mas é também uma prova que se corre com a cabeça, e não com as pernas. Aprendemos muito sobre nós próprios nesses 12 km. E ficamos a saber que teremos força para saltar todos os muros que se vão levantar à nossa frente até à nossa meta final. Tinha por isso razão a organização quando anunciava a prova: "Maratón de Sevilha. Mucho más que correr!".

14 comentários:

João Ralha disse...

Parabéns, Cláudio,

Pela tua magnífica estreia na maratona e pelo excelente relato que nos dás de uma prova única, que qualquer um pode fazer, mas que só uns poucos conseguem.

Porque é uma prova para a qual é preciso reunir um conjunto de qualidades e de ter um grande domínio mental sobre o cansaço e, por vezes, sobre a dor.

Quem a faz pela 1ª vez, passa para um patamar diferente, muito compensador mentalmente e obtém uma enorme satisfação que nos acompanhará para sempre.

Acabar a maratona, compensa muitas vezes, todos os esforços que temos que fazer nos treinos de preparação e na prova, em particular nos famigerados "12 km".

Runabraços

Helena Telino disse...

Adorei o relato! Venga, venga campeón!

José Bagina disse...

Cláudio,
Com o teu relato deu perfeitamente para sentir a tua prova :-)
Parabéns pela excelente estreia, em Lisboa estamos lá!!!

José Carlos Melo disse...

Parabéns Cláudio!! A Primeira está feita e com um bom tempo para a estreia. A Maratona de Sevilha é uma boa prova para uma estreia.

Agora ao reveres o filme da prova dará para perceberes algumas coisas a alterar na preparação e no decorrer da prova para a próxima ser melhor sucedida.

Muito bom relato da Maratona. Deu para sentir o que se passou.

Venga Campeón!! Run Abraço.

José Carlos Melo disse...

Na Maratona de Sevilha 2013, a 2ª parte do percurso está muito melhor que em 2012. Eu gostei muito dos últimos 10 kms, principalmente a passagem pelo Parque Maria Luisa. Muito boa ideia.

Também esteve melhor o início no exterior do estádio, porque não houve o afunilamento á saída do estádio.

Alguns pormenores logísticos no interior do estádio gostei menos que em 2012, não acompanharam o crescimento de participantes: Na entrega da roupa houve cenas que não são compreensíveis e os balneários do estádio não estão nada dimensionados para uma prova com esta participação.

As lembranças também foram mais fracas que em 2012, não houve toalha nem meias, a t-shirt e os calções de menor qualidade. Mas o preço continua a ser claramente imbatível.

Tigas disse...

Muitos parabéns campeón Cláudio. Excelente relato da primeira maratona. Espero um dia poder fazer o mesmo.
Abraço e continuação de boas corridas.

Miguel San-Payo disse...

Parabéns Cláudio,

agora já só falta correres a 2ªMaratona para te tornares MARATONISTA. Quanto a mim, foi a minha primeira prova internacional e estabeleci um PBT.
Parabéns também a todos os outros RUN 4 FUN que terminaram.

RunAbraços

46 disse...

Muito bem Cláudio.

Excelente relato e uma grande maratona.

Que te viu e quem te vê. Os resultados alcançados fazem com que estejas mais confiante e estabeleças objetivos mais ambiciosos e que tenhas mais vontade de treinar.

É esse o caminho. Continua a segui-lo.

Abraço,

AC

João Ralha disse...

Cláudio,

Um detalhe adicional: passas a ser o nosso septuagésimo maratonista, ou o nº 70 para facilitar.

Temos na nossa equipa 63 homens e 7 mulheres que já fizeram a maratona. Isto está muito desequilibrado.

Têm a "palavra" as nossas "meninas"!!!!!

Runabraços

Ndda disse...

Parabéns Claudio Maratonista.

A primeira é sempre inesquecivel.

Dá-me especial gozo ler os épicos Posts de estreia na Maratona.

Obrigado pela partilha e nunca mais serás o mesmo.

Boa recuperação.

RunAbraço,
NDA

Orlando Ferreira disse...

Muitos parabéns Cláudio e também aos restantes laranjas.
A descrição é certamente muito resumida de tudo o que se sente durante as 4h mas deixou bem claro o misto de emoções/sensações e a muita força de vontade em concluir e conseguir atingir os objectivos ambicionados.
Continuo a não me esquecer da tua imagem na parte final da 1/2 em Setúbal à menos de 1 ano... e de repente já fizeste a MARATONA!
Acredita que não voltarás a ser o mesmo e que são estes "pequenos" marcos de demonstram do que somos realmente feitos e do que somos capazes de atingir.
Muitos parabéns MARATONISTA.

Patrícia Calado disse...

Parabéns Cláudio!

A minha primeira recordação de ti tem menos de 1 ano, na Meia Maratona da Ponte 25 de Abril, em que, salvo erro, fizeste a mini!!

Para mim eras "aquele da bicicleta"!

Agora és mais "um das maratonas"!

É a vida! Parabéns sinceros, grande percuso, excelente exemplo de dedicação!

Nuno Sentieiro Marques disse...

Muitos parabéns Claudio.

A tua evolução tem sido fantástica e seguramente uma inspiração para muitos de nós.

Gostei muito da leitura e estou convicto que jamais esquecerás esta experiencia...a primeira de muitas mais seguramente.

Runabraços

Teodoro Trindade disse...

Caro amigo MARATONISTA,

Apesar das dificuldades por que todos passamos numa aventura deste calibre, o verdadeiramente importante é o resultado. E esse deixa-nos a todos com um enorme sorriso nos lábios. Desejo que ele perdure até ao tiro de partida do próximo desafio.

Muitos parabéns, foi excelente a prestação e o seu relato.
TT