sexta-feira, 20 de julho de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preâmbulo



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
-    Álvaro de Campos




Perfil Altimétrico

Percurso


O Ehunmilak (vide o meu post anterior) é uma prova pedestre de montanha, com 168 km de comprimento e 22000 metros de desnível acumulado (11 mil a subir + 11 mil a descer), que passa pelos picos montanhosos mais significativos da província de Guipúzcoa, na comunidade autónoma do País Basco. A sua personalidade própria deve-se principalmente aos seguintes factores: a enorme beleza da envolvente paisagística; a feroz inclinação ascendente e descendente dos seus trilhos, que incluem troços de vários quilómetros ultrapassando os 25%; a dureza do seu piso, capaz de desfazer a sola do pé mais rijo; a inconstância caprichosa  da sua meteorologia, que potencia o grau de dificuldade ao gerar autênticos rios de lama e perigosas pedras escorregadias.

Ou seja, um autêntico Adamastor, esperando para nos devorar caso tenhamos a ousadia de tentar a sua travessia.

«Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;»
- Os Lusíadas, Canto V.



Psicose:
«O termo psicose é definido como a incapacidade de distinguir entre a experiência subjectiva e a realidade externa, ou seja, existe uma perda de contacto com a realidade.»

O enorme, gargântuo, demolidor desafio que foi para mim o Ehunmilak pode ser definido como a anti-psicose.

Processa-se em 3 estágios em que se vão removendo as camadas externas da psique até restar apenas o eu nu e primevo, imerso numa realidade pre-uterina, uno com o Universo ("no princípio era o Verbo").

Primeiro a Montanha destroi o corpo, fibra por fibra, até não sobrar mais nada para além da mente para nos levar adiante. Seguidamente destroi a própria mente, através do cansaço e da privação do sono, que impedem a concentração e nos dificultam os passos. Por fim sobra apenas a vontade pura para nos levar até ao fim.



Cinco dias volvidos sobre o término da prova, ainda passo horas meditando sobre o que sucedeu na Montanha. Tenho recordações muito mais vivas daquilo que se passou no segundo dia do que ocorreu no primeiro (a falta de sono prejudica a formação de memórias). Ainda tenho dores e abrasões em vários pontos do corpo e ainda tenho dificuldade em sentir o dedo grande do pé esquerdo. Ainda sinto a astenia e o sono profundo que me conquistaram nos dias posteriores à prova.

Contudo, sinto também a calma reconfortante proporcionada por aquele contacto prolongado com a vontade no seu estado mais puro.


Nota:
Da mesma forma que eu ainda me encontro no processo de reconstrução pós-Ehunmilak, esta vai ser uma crónica em (re)construção. Reservo-me, humildemente, o direito de corrigir alguma construção gramatical mal engendrada ou limar alguma expressão menos conseguida, ou até mesmo introduzir algum parágrafo que me faça sentido, à medida que for publicando.

11 comentários:

Luísa Ralha disse...

Luis
Tu cada vez que relatas uma experiência, surpreendes-nos pela tua capacidade de escrita e descrição das dificuldades dos percursos e do que nos vai na alma e no corpo ao longo dessa jornada. Esta pequena introdução já nos apimentou a curiosidade para os relatos que aí vêm.
Espero que recuperes dessas mazelas o mais rapidamente possível. Cá te aguardamos para te rever no Trail Nocturno de Óbidos. Bjs Luisa

Luis Correia disse...

Murakami quando correu uma ultra de 100 (não me lembro se milhas se quilómetros) também entrou em reflexão profunda sobre a vida. Tu (e quase todos nós) leste o livro e lembrar-te-ás dessa parte. Provas desta natureza devem acabar por ser mais mentais que físicas, se é que isto é possível. Parabéns pelo teu feito e espero que daqui a duas ou três semanas possas dizer que a experiência foi positiva. Daquilo que me lembro Murakami nunca mais quis participar numa distância destas. Boas férias. Bom descanso.

João Ralha disse...

O preâmbulo promete.

Aguardamos, ansiosamente, os próximos capítulos

Runabraços

Nuno Sentieiro Marques disse...

Obrigado pela fantástica partilha Luis.

Runabraço

ManuelaC disse...

Ao ver o perfil do percurso compreendi a violência que foi percorrê-lo. Ao ler a tua descrição (introdutória) confirmei como a prova é demolidora, arrazadora! Só muito poucos, com uma força de vontade férrea, comandados pelo espírito quando o físico já está de rastos, é que conseguem superar tal prova.
Que orgulho pertencer ao teu grupo R4F!
Até 4 de agosdto, em Óbidos

Francisco Sanches Osório disse...

Viva Luís,

A tua partilha é verdadeiramente enriquecedora e, apesar da dureza da prova, é sempre um desafio irmos ao encontro de nós próprios no sentido mais profundo.
Obrigado e parabéns por mais esta grance demonstração!
Grande abraço

Goncalo Fontes de Melo disse...

Caro Luis,
Aguardo, com impaciência, o relato que sucede a este preambulo para lá de metafísico. Deve ter sido uma experiência única. Parabéns desde já por teres conseguido terminar esta prova. Extraordinario.
Abraço.
Gonçalo

Orlando Ferreira disse...

Luís, sobre a tua prestação na prova qualquer comentário será pouco para o feito realizado.
Quanto à escrita, ela está a subir para patamares muito elevados e não me parece que seja apenas motivado pelos ares da montanha.
Obrigado pela partilha e aguardarei ansiosamente pelos restantes detalhes.
Bom descanso.

Ze Carlos disse...

Luís,

Quero esse relato em 1ª mão no nosso próximo treino em Sintra!

Abraço

Zé Carlos Santos

Miguel San-Payo disse...

Grande LUÍS,

estou ansioso à espera da tua magnífica descrição da prova e muitos parabéns pela tua loucura. De fato e gravata, das 9 às 5 já nós estamos fartos. Queremos é coisas diferentes. Agradeço também as tuas encorajadoras e simpáticas palavras no domingo passado, na Ultra-Maratona Melides Tróia.

Miguel San-Payo disse...
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