Ultra Trail da Amizade 52k 2025 (Crónica)

Crónica – Ultra Trail da Amizade 52k 2025
(por: Sérgio Miguel)


O Ultra Trail da Amizade não foi apenas mais uma corrida. Foram 52 km e cerca de 2.400 D+, que se transformaram num ensaio para os 100 km que me esperam em 2026, mas também numa celebração da amizade, da equipa e da paixão por correr.

A Véspera – O Ritual da Amizade
Chegar um dia antes já é tradição. Não é apenas logística, é ritual. Levantar dorsal, passear nas calmas, sentir o cheiro da terra molhada e das aldeias que nos recebem. É nesses momentos que Portugal se revela de forma diferente: não nos incêndios onde conheço em serviço como bombeiro, não nas notícias, mas nos trilhos escondidos, nas gentes que nos sorriem, nos cafés onde se fala da prova como se fosse festa da aldeia.
O reconhecimento do terreno é mais do que estratégia: é mergulhar no mapa secreto que cada prova nos oferece. Postos de abastecimento, curvas, subidas, descidas - tudo observado com olhos de quem sabe que amanhã será batalha.

O Terreno – Lama Escorregadia e Pedra
Os dias anteriores foram de chuva intensa. O resultado: lama barrenta, mas não daquelas que enterram o pé até ao tornozelo. Esta era pior: escorregadia, traiçoeira, que te fazia deslizar mesmo com pitões de futebol. Cada passo era um teste de equilíbrio e técnica.
As pedras obrigavam a levantar os pés como se fossem armas. Cada subida era um castigo, cada descida uma roleta russa. Não havia espaço para distrações. Um olhar ao relógio, uma pausa para admirar a paisagem, e o castigo vinha rápido: escorregadelas, tropeções, quedas iminentes. O terreno era um inimigo vivo, que exigia respeito e atenção total.

A Organização – Oásis no Caos
Se o terreno era caos, a organização era ordem. Receção calorosa, voluntários incansáveis, abastecimentos impecáveis. Em todos os postos havia o que habitualmente encontramos nos trilhos - e até mais do que o habitual, como só quem corre sabe apreciar.
Um exemplo marcante: no posto da capela, a meio da prova, por volta dos 25 km, até havia canja. E não foi apenas um detalhe gastronómico - foi símbolo da atenção e cuidado da organização para com os atletas. Coca-cola, marmelada, fruta, sopas… tudo disponível em quantidade e variedade.
Mais do que comida e bebida, havia energia humana. Voluntários sempre atentos, a perguntar se precisávamos de algo mais, a dar força com um sorriso. Cada posto era um oásis, não apenas pelo que oferecia, mas pela motivação que transmitia.
Não só nos postos mas também nas travessias de estrada que eram várias, obrigado a todos.

A Corrida – Gestão de Esforço e Treino
Nos primeiros quilómetros, o corpo ainda carregava o peso da semana anterior — a meia maratona dos Descobrimentos deixara marcas. Mas a cada subida, a cada descida, a energia ia renascendo.
Não houve fúria no final. O que houve foi boa gestão de esforço e a confiança nos treinos. Saber quando acelerar, quando poupar, quando deixar o terreno ditar o ritmo. Nos últimos 6 km, a energia estava lá porque o trabalho tinha sido feito antes: reforço muscular, treinos consistentes, disciplina. Resultado: pódio inesperado. Não é o objetivo principal, porque o lema é claro: RUN 4 FUN — correr e divertir. Mas quando a diversão se traduz também em resultado, sabe ainda melhor.




A Chegada – Teatro e Glória
A meta foi um espetáculo. Figurantes vestidos à época, lanças erguidas, como se tivéssemos acabado de conquistar um castelo. A chegada não foi apenas cortar uma linha: foi atravessar um portal, entrar numa festa medieval onde cada corredor era tratado como herói.
O jantar, simples mas eficaz - arroz, ovo, atum, ervilhas - soube a banquete. Não pelo luxo, mas pelo sabor da conquista. Cada garfada era vitória, cada pedaço de pão era medalha invisível.

As Marcas da Batalha
Sem danos relevantes, mas o corpo trouxe cicatrizes da aventura:
  • Algumas bolhas nos dois pés, lembrança da lama escorregadia e das longas horas de esforço.
  • Pernas bem riscadas pelo silvado, como tatuagens naturais da passagem.
  • Dores musculares acumuladas, fruto não só do Ultra Trail, mas também da prova de estrada de 10 km - o Grande Prémio Continental - dois dias de esforço contínuo que deixaram o corpo marcado, mas a mente ainda mais forte.

A Família e a Equipa - O Verdadeiro Pódio
No fim, o orgulho não é só pessoal. É representar a equipa, é ouvir a malta da equipa 100 Gás Trail Team a gritar o nosso hino - RUN 4 FUN - e sentir o arrepio na pele. É ter a família nos abastecimentos, a paciência infinita de quem acompanha estas loucuras e dá força quando mais precisamos.
Na entrega de prémios, o momento foi ainda mais especial: ver o sorriso de outra equipa, ouvir o grito coletivo, sentir que não corremos sozinhos. O trail para mim é isso: comunidade, partilha, amizade.





Resumo da prova...
  • Ultra Trail da Amizade: lama escorregadia, pedras e caos técnico.
  • Organização e voluntários: 5 estrelas, energia que salva (até com canja na capela).
  • Últimos quilómetros: gestão de esforço perfeita, treinos a render.
  • Chegada épica, jantar simples, coração cheio.
  • 3º de escalão de 24 atletas, 28º na geral de 114 atletas.
  • Bolhas, silvado e dores musculares: marcas da batalha. 
  • Família e equipa: o verdadeiro combustível.


Porque há trilhos que não se correm só com as pernas - correm-se com a alma, com a disciplina e com o fogo que nunca apaga.


Trail da Amizade - Fantástica organização e prova!!! 💪
100 Gás Trail Team - Agradecimento ao apoio moral durante e no final da prova
❤️






Comentários

  1. Parabéns Sergio!!
    Estás fortissimo a correr e na escrita!
    Excelente resumo.

    Venham mais provas.

    Rui Faria

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