A minha ultra do Piódão.

No início desta época de provas decidir nadar para fora de pé. Quis largar os sprints e aventurar-me nas provas do primeiro patamar dos mais experientes... as ultras. Esta doidice começou logo em fevereiro, em Sicó, pois de todas as provas disponíveis, achei que seria a mais acessível, pelo simples facto de ser a prova, ou o piso, onde já teria corrido, em prova, mais vezes. Tive, durante esses quilómetros todos, o apoio incondicional do meu mais-que-tudo. Traçou um plano de ataque, treinou comigo, fez a prova sempre a meu lado e cruzamos a meta juntos. A ele, devo-lhe tudo nesta primeira experiência!

Bom, então já que fiz uma ultra e até correu dentro do limite, porque não tentar fechar o circuito? São só 4 provas sem regiões específicas... não deve custar assim tanto! Surgiu assim a ideia do Piódão.

Chegaram as semanas pré Piódão. Podia assumir que já ia conhecendo relativamente bem a zona, a serra, as vistas, as ribeiras geladas. Achava eu que não teria a companhia do meu mais-que-tudo, mas também, se sou crescida para me aventurar nestas distâncias também sou crescida para fazer sozinha! Digo eu...! Falei com amigos da organização para perceber um pouco melhor as dificuldades técnicas que poderia apanhar durante o percurso, convenci uma amiga dos trails (e conhecedora do percurso) a acompanhar-me no meu ritmo e apostei tudo. Borradinha da cueca desde a semana anterior, percebi que ia ser um desafio grande. Talvez maior do que achava quando me inscrevi! Não só por algumas pequenas lesões e mazelas que vão ficando e moendo, mas porque comecei a duvidar das minhas capacidades. Não esperava, grandes conquistas ou tempos, queria apenas conseguir terminar, sem lesões novas. 

Poucos dias antes percebi que também ia ter a companhia do meu mais-que-tudo durante parte do percurso. Dizia-me “se fazes 30 km e estás habituada a passar 7h sozinha na serra, se eu fizer os primeiros 20 e poucos km contigo, o resto eu sei que consegues”. Se isso é verdade, também é verdade que as faço a começar fresca, não é com alguns bons quilómetros e cansaço em cima já. 

Chegou o dia, dormi ansiosa, mas não perdia nada e ia tentar fazer o meu melhor! Começamos a prova e rapidamente ficamos 5 para o fim, eu, o meu mais-que-tudo, a amiga dos trails e o marido (que nos ia acompanhar) e o amigo recolhe-fitas. Tão depressa quanto começamos, tão depressa nos enganámos. Culpa minha, a subir concentrada com bastões e a ver onde colocava os pés, não vi a curva e a fita à direta. Retomámos o percurso, mas com pouco mais de 3 km de prova, percebemos que tinha mais pernas que a amiga, pelo que, eu e o meu mais-que-tudo seguimos caminho. As mazelas começaram a dar sinais muito cedo, o meu mais-que-tudo seguia ligeiramente à frente e parava à minha espera “Eu estou a fazer o meu melhor”, dizia eu, “Eu sei que sim, eu acredito em ti, vamooooos!”, respondia ele para me motivar. Comecei a duvidar de mim e de ser capaz, mas não queria prejudicar a prova de quem ia comigo e fui sempre tentando mais e mais um bocadinho. 

Chegaram os 20 e poucos quilómetros e disse “quando quiseres ir vai, segues caminho. Dá-me só um beijinho antes!”. Num instante chegou o momento “agora eu vou, mas sempre que saíres de um abastecimento, diz-me alguma coisa, envia-me um áudio que é mais fácil! Vai mozona! Eu sei que tu és capaz, diverte-te e até já”, respondeu-me e seguiu. Vi que havia uma alma meio perdida a seguir o caminho pelos trilhos, sabia que, à partida, não ficaria totalmente sozinha na serra. Fomos caminhando serra acima, correndo serra abaixo durante algum tempo, mas rapidamente também ficou para trás. O que eu ainda tinha pela frente de trilho era familiar, as edições mais curtas que tinha feito anteriormente passavam ali, conhecia as curvas, as escadas, os locais de abastecimento. Segundo engano, confiei demais nisso e não me apercebi de uma cortada com fitas à esquerda para subir para o abastecimento, devo ter feito mais um quilómetro só por distração minha. Voltei ao percurso, encontrei o Pio no abastecimento que me disse que não tinha passado ainda a tal alma que vinha atrás de mim. Os últimos seriam apenas a Débora e o Fonseca que iam com uns 40 minutos de avanço. Boa! Não estou assim tão mal, julgava eu. Abasteci, avisei o meu mais-que-tudo, conforme pedido e segui caminho. 


Tinha pela minha frente um carrossel de inclinação positiva de quilómetros que nunca mais acabavam e fui, meti a segunda mudança nos bastões e lá fui, a “4 apoios” serra acima! Vi um laranjinha lá no cimo ao fundo, gritei-lhe e recebi um “Boraaaaaa” de volta, era o Fonseca. Ânimo! Nem quis saber quanto tempo tinha ou com quantos quilómetros ia, ouvia o apito do relógio por cada quilómetro feito, mas não me queria perder a cabeça ao saber quantos ainda faltavam para terminar. E subi tudo e desci, e a descida nunca mais acabava, e rolava e subia e descia e a minha motivação começava a escassear, assim como a minha energia. Não sabia da alma, da amiga dos trails, do marido e do amigo recolhe-fitas mas sempre achei que algum desses me pudesse alcançar, para todos os efeitos, eu não ia assim tão rápido...! Enviei um áudio ao mais-que-tudo “estou nos km 45 o abastecimento deve estar próximo, mas nunca mais o vejo! São 5h30, tenho até às 7 para terminar, eu acho que vou ser barrada e que não me vão deixar passar. Vou até lá, já te aviso conforme tiver novidades”. Não havia rede, o áudio não seguiu. Cheguei ao abastecimento ainda questionei se podia continuar e disseram-me que sim, mas que o meu problema seriam os meus Hoka já meio desfeitos e sem rasto para a descida que tinha pela frente. 

Segui. Lembrava-me de um pequeno trilho técnico que tinha pela frente e, eventualmente seria a descida para a aldeia do Piódão. Terminei esse trilho técnico consegui falar com o meu mais-que-tudo que me disse que tinha acabado de chegar à meta. Disse-lhe que tinha seguido que estava ali e que não tarda estaria a descer para a aldeia. Disse-me que a amiga dos trails e o marido tinham ficado pelo caminho e perguntou-me “Estás bem?”... a minha voz tremeu com o sim meio sumido, eram perto de 8 quilómetros que tinha pela frente com cerca de 1h30 de tempo para a barreira. “Não importa a hora, vem que eu sei que ti consegues, vamos”! Fui, e chorei, e desmotivei, afinal além do trilho técnico havia mais 4 quilómetros de carrossel sempre a subir que eu não me lembrava. Mas não deixei de ir, ao meu ritmo baixo. Vi aproximar-se de mim e a consumir-me um nevoeiro da breca que não vi um palmo à frente, quanto mais uma fita! Finalmente cheguei ao topo. Sabia que dali em diante era só a descer. Recolhi os bastões, liguei o frontal se fosse preciso ser vista e seguir a trote. Ainda enviei um último áudio “estou a descer, não vejo nada à minha frente, não sei se não vou ser comida por um urso! Liga-me e faz-me companhia, quando ouvires isto. Beijinho” Não tinha alternativa a não ser descer sem ver, fui, a trote, focadíssima a encontrar fita atrás de fita. Dei por mim a fazer 51,5 km dentro do limite de 10:30 de prova. “Sua burra, se não fossem os 2 enganos, tinhas conseguido”, dizia para mim. Seria por um danoninho que não terminava os quase 54 km esperados da prova. Comecei a ouvir o sino da capela, um curso de água, sabia que estaria próximo. Comecei a encontrar alcatrão, estaria quase, de certeza! Encontrei o Pio “Não te ia deixar ficar para trás, tinha que te apanhar” e animei porque estaria mesmo próximo. Ouvi o meu mais-que-tudo gritar “Bora mozonaaaaa” no início da curva da meta, acompanhou-me até ao final. 


E cheguei, com 53,49 km em 10h47. Sou finisher da minha ultra do Piódão. Tive uma salva de palmas dos bombeiros, dos amigos e a organização a gravar a minha chegada mas desta vez não houve o saltinho final da Choca (https://www.facebook.com/reel/1105456983987111).


No entanto, houve um pódio de escalão, 1ª sénior feminina da ultra. Em boa verdade, era a única sénior feminina. Mais o que o prémio de escalão, levo a lição de que tenho ainda muitos quilómetros a percorrer, muito reforço for fazer, muita cabeça por treinar e muita experiência por aprender. Porque uma ultra, faz-se com pés e cabeça. E não se houver resiliência e força de vontade, de nada vale todo o esforço que o corpo fez.

Até à próxima ultra!

Ana Mateus Chocalheiro

Comentários

  1. Ana, "Choquinha"!
    Muito orgulho em ti.

    Não é fácil opinar sobre quando é ou deixa de ser o momento certo para esse salto.

    Mas a meio da leitura lembrei-me de um treino qualquer na Paz em que vinha contigo atrás e estavas a contar-me que só fazias caminhadas e ginásio.

    E nesse treino a malta estava a apertar um pouco. Estavas um pouco ofegante.

    Fiquei com admiração por ti.

    Depois vieram as provas. E os novos desafios levaram-te a treinar mais.
    O Ano passado meteste uma bela carga de km.

    O que quero dizer é que os saltos és tu que decides quando é que vão ser.
    E é tão bom teres a companhia e a partilha aí do João.

    Choraste e desanimaste , porque provavelmente baixaste a guarda e deixaste entrar o quanto nos podemos sentir pequenos.. E fizeste muito bem.

    Na minha primeira Freita fiz um acordo em voz alta com a Serra.

    Tenho certeza que vais descobrir as ultras na sua plenitude e vais-te divertir muito. E terminar com o teu super salto.

    Da minha experiência das coisas mais importantes que aprendi é que se não treinas o suficiente podes terminar as provas mas há sempre sofrimento acima do desejado.

    E outra coisa é tentar não ter ansiedade. Gozar os dias antes da prova mas evitar a ansiedade. Machuca desnecessariamente. É só uma prova.

    Gostei do relato 🧡👏👏💪🍺

    Parabéns!
    Rui


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  2. Belíssimo relato de como o trabalho em equipa e a capacidade de superação nos levam a conseguir feitos que julgaríamos quase impossíveis. E Ana, conseguiste outro feito extraordinário que é mostrar às pessoas do teu escalão etário que te conseguiste divertir no meio de tantas dificuldades. Parabéns pela prova e pelo magnífico relato. Runabraço

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  3. GRANDE Choca!
    1º - Parabéns pela prova e pelo relato (obrigada!)
    2ª Conheço bem a ansiedade pré-prova, com o aperto das barreiras horárias e a solidão, na serra, durante horas. Mas também conheço a enorme alegria e orgulho que a superação das dificuldades, sozinha, traz.
    "És tu e o trilho", dizem no Ax Trail. E isso é brutal!
    Estiveste MUITO bem! Sentiste a ansiedade, o desafio, o cansaço, a exaustão, o retomar, o apoio, o amor, a concretização, o objectivo, a alegria e o orgulho. Saíste do Piódão mais rica e mais completa. As ultras dão esse renascimento e conhecimento.
    Muito ORGULHO na tua coragem e evolução.
    PARABÉNS, novamente!! 😘
    (ao contrário do que o Rui escreveu, não sei se a ansiedade pré-prova é má; é um sofrimentozinho acrescido, é certo, mas sendo mais um elemento a ultrapassar, aumenta a satisfação final. Não é assim, na vida "real"?)

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  4. Adorei ler , tenho acompanhado a tua evolução e tem sido grande quanto a cabeça tens toda a razão também temos que nos habituar porque em provas grandes a probabilidade de irmos sozinhas é muito grande , agora a próxima está perto FOCO no objetivo . Parabéns

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  5. Que belo relato, Anocas!
    Parabéns por este feito e por te superares sempre. Desta vez não tiveste tambores à tua espera, mas tiveste abraços e o mas-que-tudo sempre ali! Que espetacular! Parabéns!

    Cândida

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  6. És uma inspiração para todos nós.
    As tuas dúvidas e inseguranças são as mesmas que sentimos quando nos aventuramos para “fora de pé”.
    Obrigado pela partilha, adorei.
    Que venha a próxima.
    Bjs

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