domingo, 14 de abril de 2013

Treino Felicitas Julia - 1.ª Edição

Numa manhã de nevoeiro, um grupo de bravos Run 4 Fun juntou-se no Terreiro do Paço e fizeram uma viagem no tempo, em modo de treino, à Lisboa Romana - Felicitas Julia/Olissipo.



A prova durou cerca de duas horas e foi muito animada. Basicamente consistia numa viagem virtual à Lisboa ocupada pelo Império Romano de acordo com as minhas explicações e as do nosso amigo Miguel Rebelo de Sousa. No final do percurso, contámos com um bolo ótimo da Inês Gil Forte e um moscatel da Fernanda Costa. 

Foi um encontro memorável e a repetir. Já estou a preparar uma segunda edição, com novos percursos e novas curiosidades. Lisboa é uma cidade plurifacetada e reclama visitas deste género, com uma nova classe de turisto-runners.






Aqui seguem algumas curiosidades históricas:

1) LÁPIDES DAS PEDRAS NEGRAS (disponível aqui):
Aquando da construção de um prédio pombalino na Travessa do Almada, conhecido justamente como "prédio do Almada", foram descobertas quatro lápides contendo inscrições latinas, duas das quais dedicadas aos deuses romanos Mercúrio e Cíbele. As lápides foram mantidas no local, integradas na fachada lateral do edifício, onde se encontram actualmente. A designação comum das lápides provém da rua com a qual o prédio faz gaveto, a Rua das Pedras Negras. O edifício, apalaçado, foi mandado construir em 1749 por D. João de Almada de Melo, senhor de Souto d' El-Rei, e as inscrições foram descobertas durante a escavação das fundações, a par do que seriam vestígios de um templo Romano dedicado à deusa Cibele. Fazem parte de um grande conjunto de achados arqueológicos da época romana na zona, que incluem as galerias romanas ou criptopórtico da Rua da Prata, e o vizinho Teatro Romano de Lisboa. 
A primeira lápide encontra-se incompleta, lendo-se apenas MERCVR.../ CAESA.../ AVGVST.../ C. IVLIVS F. IU.../ PERMISS V. DEC.../ DEDIT. F... , permitindo apenas compreender o nome de Caio Júlio, dedicante, e as invocações do deus Mercúrio e do imperador César Augusto. 
A inscrição seguinte é composta pela lápide e por um troço de coluna e pequeno pedestal, e nela se lê DEVM MATR / T. LICINIVS / AMARANTIVS / V. S. L. M, ou Tito Licínio Amarantio por voto dedicou à mãe dos deuses. 
A lápide maior, com mais de 2 metros de altura, possui a inscrição L. CAECILIO. L. F. CELERI. RECTO. / QVAEST. PROVINC. BAET. / TRIB. PLEB. PRAETORI. FEL. IVL. / OLISIPO, traduzível como Felicitas Julia Olisipo dedica a Lúcio Cecílio filho de Lúcio Celeri recto questor da província da Bética tribuno do povo e pretor. A inscrição de homenagem do povo de Lisboa ao pretor Lúcio Cecílio, da província da actual Andaluzia, é sobretudo importante por testemunhar que o título de Felicitas Iulia, concedido a Lisboa por César Augusto, se conservou durante as centúrias seguintes. 
A última lápide é rematada por um pequeno frontão, e exibe a legenda MATRI DE / VM MAG. IDAE / A FRHYG. T. L. / LYCH CERNO / P. H. R. PERN. IIVI / CASS. ET CASS. STA. / M. AT. ET AP. COSS. GAI, dedicatória de Caio Licínio Cerno, da Lycaonia, na Ásia Menor, à deusa Ida da Frígia, mãe dos deuses, na época dos cônsules Marco Atílio e Afrosiano, e do governador Gaio. 






2) TERMAS DOS CÁSSIOS
Conhecidas durante muito tempo por uma informação documental do séc. XVIII, somente entre 1991 e 1994 foi possível colocar a descoberto esta estrutura termal datada do séc I a.C., conhecida como Termas dos Cássios. De acordo com o texto de uma inscrição epigráfica, este edifício sofreu obras de remodelação ainda no séc. IV, comprovando o seu longo período de utilização.
Estes importantes vestígios de época romana, aguardam ainda um processo de musealização que permitam compreender melhor a sua funcionalidade integra-los na malha urbana, a meio caminho entre a área portuária/industrial e a área civil que se erguia ao longo da colina.


3) TEATRO ROMANO (disponível aqui)
Corria o ano de 1798, quando na sequência dos trabalhos de reconstrução que se seguiram ao grande terramoto, foram identificadas algumas ruínas na Rua de S. Mamede que posteriormente se verificou fazerem parte do teatro de Olisipo. Por este achado se interessaram alguns viajantes estrangeiros que então visitaram a cidade, bem como um dos arquitectos responsáveis pelo traço do Palácio Real da Ajuda, o italiano Francisco Fabri, que nos deixou um esboço aguarelado das ruínas. O mesmo Fabri tentou ainda, de forma activa, manter as ruínas a descoberto, mas a dinâmica reconstrutiva que Lisboa então vivia, não lho permitiu.
As ruínas permaneceriam assim adormecidas até 1964, data em que trabalhos realizados nas caves de habitações localizadas na área do teatro permitiram iniciar o seu estudo de forma sistemática em campanhas que se prolongariam até 1967. Seria preciso esperar até 2001 para que finalmente fosse possível avançar com um projecto de recuperação, requalificação e valorização do sítio que se traduziria na criação do Museu do Teatro Romano. O estudo do local continua a realizar-se em campanhas arqueológicas sucessivas, estando hoje a descoberto, cerca de um terço da área primitiva do teatro.
 Dos elementos entretanto recolhidos sabe-se que o edifício foi construído na 1ª metade do século I e concebido para acolher entre 3 e 5 mil espectadores. Foi sujeito a significativa remodelação decorativa no ano 57, no decurso da qual se procedeu à reconstrução do muro do proscaenium e à renovação da orchestra, trabalhos custeados por um bem sucedido sacerdote (e ex-liberto) de nome Caius Heius Primus, cujo nome ficou perpetuado nos mármores do edifício.


4) GALERIAS ROMANAS (disponível aqui)
Foi no decurso do processo de reconstrução de Lisboa, após o grande terramoto de 1755, que surgem pela primeira vez referências de um vasto conjunto de Galerias Romanas no subsolo da baixa lisboeta. A incipiente noção de património levou a que apenas uma lápide fosse salvaguardada, vindo a estrutura a ser utilizada como suporte para os edifícios pombalinos. 
A arquitectura e as técnicas de construção destas galerias sugerem ser um monumento da época do Imperador Augusto (finais do séc. I a.C. - início do século I), contemporâneo de outros edifícios da cidade romana de Olisipo.
Desde a sua descoberta as Galerias foram alvo de diversas interpretações quanto à sua função original. Se, numa primeira fase, os estudiosos pensavam tratar-se dos restos de um conjunto termal, as teses mais recentes são unânimes em identificá-las como sendo um criptopórtico.
Os criptopórticos constituíram uma solução arquitectónica adoptada com alguma frequência pelos romanos, especialmente em terrenos de topografia irregular, permitindo deste modo, a criação de uma plataforma artificial que servia de apoio à construção de grandes edifícios, normalmente públicos.
Desconhece-se ainda, qual a construção que estaria edificada sobre este criptopórtico, mas hipóteses recentes sugerem poder tratar-se de uma estrutura ligada à zona portuária.
Actualmente e devido à construção de colectores de esgoto, apenas é possível aceder a 1/4 da área do monumento, sendo a área visitável, constituída por uma rede de galerias ortogonais de diferentes alturas. 
Destacam-se os arcos em pedra com aparelho almofadado, típico da época imperial romana. Das abóbadas podem-se também observar algumas aberturas circulares que serviram de bocas de poço, pois a partir de data que se desconhece, a água invadiu o recinto que passou a ser utilizado como cisterna, até meados do século XIX.
Permanentemente inundadas, as Galerias abrem às vistas do público uma única vez por ano, no decurso das Jornadas Europeias do Património, durante o mês de Setembro, e atraem extensas filas de pessoas que esperam longamente pela possibilidade de visitar este interessante local. 




5) CIRCO ROMANO (disponível aqui)
A importância da cidade aliada à conhecida reputação dos rápidos cavalos da Lusitânia e à popularidade das corridas de carros puxados por cavalos, desde há muito fazia suspeitar que também Olisipo teria tido o seu circo, hà semelhança de outras cidades da província, como Balsa ouMiróbriga. Quando se olha para a topografia da cidade de então, uma localização plausível para uma estrutura deste tipo seria a dos terrenos da actual praça do Rossio, pois corresponde a uma área extensa, quase plana, com fáceis acessos e localizada não muito longe da cidade Todavia e embora presença intuída, só durante trabalhos realizados entre 1994 e 1997, pelo Metropolitano de Lisboa, na Praça do Rossio, foi possível trazer à luz do dia as evidências desse monumento, quando a cerca de 6 metros de profundidade, foram identificados os restos da barreira e dos tanques de água (euripus) que a rodeavam . 
Diversos indicadores permitem concluir com grande probabilidade que este edifício não seria uma construção alto-imperial, o grande período de edificação na cidade, mas antes uma realização posterior ao século II d.C., isto se se tiver em conta que só se conhecem circos com euripus a partir das alterações de Trajano efectuadas no Circus Maximus, em Roma. Assim, e em face dos elementos identificados tudo indica que o circo terá sido construído a partir da segunda metade do século III d.C., ou talvez mesmo nos inícios do IV, que embora se trate de um período pouco propício às grandes obras públicas, foi apesar de tudo o mesmo em que o circo de Mérida foi completamente restaurado, quando lhe foi construído entre os anos de 337 e 340, o euripus. Acresce ainda que foi igualmente nesta época que a criação de cavalos para espectáculos de circo, terá atingido o seu apogeu na Lusitânia, o que por si só ajuda a justificar a construção de estrutura deste tipo.
Também o facto de o monumento se encontrar implantado em terrenos ocupados ou adjacentes à necrópole da Praça da Figueira que terá funcionado entre o século I d.C. e o III, não constitui situação inédita sendo que a desactivação da necrópole terá permitido uma nova ocupação do espaço para uma finalidade completamente distinta. Aliás esta vizinhança de circos e necrópoles, encontra-se documentada em outras pontos do Império como sejam os casos de Arles e de Sousse.
Excluida parece estar a possibilidade de a este monumento estar associado um palácio, como sucede no século IV d.C. em diversos circos um pouco por todo o Império, atendendo ao facto deOlisipo não ter sido uma cidade imperial.
Embora não existam provas concretas acerca da data de abandono da utilização do circo é de admitir que ela tenha coincidido com a fase de agonia do Império Romano do Ocidente, período em que se regista um progressivo decréscimo da popularidade das corridas de carros puxados por cavalos.





2 comentários:

João Ralha disse...

Guilherme,

Um excelente passeio atlético-cultural-turístico, num belo dia de Sol.

Aprendi mais uma série de informação muito interessantes sobre a nossa cidade de Lisboa, o que me agradou muito, pois sou um curioso da História.

Dois notáveis "guias", tu e o Miguel Sousa, que conseguiram captar o interesse das algumas dezenas de felizardos que tiveram a "coragem" de estar às 8:00 da manhã, de Sábado no Terreiro do Paço.

Para rematar, o tradicional "pic-nic" desta vez no Campo das Cebolas, com bolo e outras iguarias trazidos pela Inês, a Fernandinha e outros.

Parabéns a ti a ao Miguel pela notável organização, condução e remate do "passeio" neste belo e educativo relato

Aguardamos com expetativa a 2ª edição.

Runabraços

Nuno Sentieiro Marques disse...

Muito obrigado Guilherme pela "historica" partilha.

Relato muito agradavél do que foi seguramente uma bela manhã de convio e desporto.

Desta vez estivemos por paragens afastadas e a presença era de todo impossivel...ficaremos a aguardar pelo próximo.

Runabraços