segunda-feira, 1 de julho de 2013

Eu não fiz a Freita, a Freita fez-me a mim.



(fotografia descaradamente palmada ao grande João Guerra)


Uns vão gostar, outros vão amaldiçoar a prova... e todos terão razão. Agora que ninguém diga nunca que foi ao engano, o Moutinho faz questão de esclarecer que na Freita as coisas são feitas ao gosto dele, não haverão duas edições iguais e a regra número um é manter um espírito aberto. Para confirmar bastam 5 minutos de google. E acho muito bem, apesar de ter sofrido muito para acabar a prova. Os reparos que posso fazer são em relação aos abastecimentos, que me pareceram pouco mais que serviços mínimos (embora com o conjunto de voluntários mais prestáveis e bem dispostos que encontrei até hoje), e um alerta para a segurança. Em demasiados troços da prova é impossível socorrer alguém em tempo útil. Agora ouvir queixas durante a prova acerca da dureza da mesma parece-me descabido. É o que é, ponto. Num dia bom conseguimos terminar, mas na minha opinião todos os que se apresentam na linha de partida são ganhadores. Ou loucos. Posto isto...

O local é maravilhoso. Lindo, com paisagens de cortar a respiração. Os percursos no rio, tramados, mas com piscinas naturais deliciosas. Depois do abastecimento do km 30 encontrei o Jorge Prazeres mais dois atletas a tomar banho numa (mergulhavam de cabeça!), eu e o João Guerra Aventura também lá acabámos a refrescar as ideias e logo de seguida também se juntou o abutre João Lamas. Isto soa a filme rasca mas não é ;).

Porque o calor foi um problema muito sério. às 5h30 estava tudo só em t-shirt e daí para a frente só piorou. Uma das muitas coisas que fiz bem nesta prova foi hidratar-me sempre, desde o início. Bebi água em todos os locais em que a encontrei, tive o cuidado de ter sempre o camelbak cheio, e usei muito o truque de mergulhar o chapéu e voltar a pô-lo. Baixar a temperatura da cabeça tem um efeito generalizado no corpo e dá imenso ânimo. Usei os bastões apenas depois do primeiro abastecimento (20k), porque sabia que ia rolar bastante e depois precisava das mãos livres para a primeira passagem do rio, terrível de lenta e difícil. A seguir andaram sempre a uso e que jeito me deram. Levei uma sandes de presunto que se revelou providencial (vénia ao mestre Nuno Tempera), e fui alternando entre um gel meio salgado e umas barritas de que gosto. Nos abastecimentos comi bastante tomate maduro fresquinho com sal, uma novidade de que gostei muito. Claro que mais para o fim já estava muito enjoado, mas deu para fazer a prova sempre com algum combustível no depósito que era o importante.

O engano da Freita é começar tão rolante, e isso deu cabo de muito boa gente. A primeira incursão no rio dá logo o tom à coisa, mas o purgatório começa a meio da prova, com o trilho dos Incas. É subir forte e feio. Encontrei dois atletas a vomitar violentamente, e a sofrer com desidratação. Metade do meu camelbak foi para um, que se arrastou até ao posto dos 40k, não sei se tentou continuar. O outro vinha na frente a abusar e não ingeriu sólidos suficientes (asneira que se paga caro). Depois só piora até ao fim. Saídos deste abastecimento, onde muitos atletas ficam, enfrentamos uma subida a que chamaram A Besta. Demolidora. Com 40k nas pernas, com aquele calor, ter que enfrentar aquilo desmoralizou-me imenso, para além do desgaste físico. Tive a sorte de me cruzar com um companheiro que me soube dar ânimo, numa altura em que precisava dele. Perguntou-me se não conseguia um trote ligeiro só para as pernas se lembrarem da sensação, e foi como um tónico para o corpo e a alma. Foi um favor que retribui mais tarde com pilhas, o frontal dele ligou-se na mochila e as deles ficara muito fracas. No abastecimento dos 50k tinha o João Guerra à minha espera, com vontade de fazer o resto comigo. Foi sempre uma companhia e uma lebre preciosa, tenho muito a agradecer-lhe. A prova que o diabo está nos pormenores é que por cansaço e descuido se deixou entrar em desidratação, o que o impediu de terminar e a ficar nos 60k. Achei que tinha tudo para fazer uma belíssima prova, muito confortável. Nos 60k, abastecimento da sopa (óptima canja com massa) e bifana (que não comi que o estômago já andava zangado), fazia já muitas contas à vida e aos tempos de corte da prova. Tínhamos um controle aos 65k, que atingi já depois da hora mas tive a sorte de ainda me deixarem passar (eram muitas voluntárias espanholas, giras e simpáticas, por isso talvez estivessem um bocadinho distraídos...). Acho que depois de mim poucos passaram. E os "míseros" 5k que faltavam tornaram-se uma autêntica via sacra. Para além do estoiro físico a cabeça já não era a mesma, e a noite cerrada iluminada apenas a frontal. Foi apenas à custa de ânimo, ou o que restava dele, que fiz 2k mais ou menos rolantes (tanta pedra...), 1k de descida demolidora e atravessamento do rio (numa ponte!), e 1k da temida Frecha da Mizarela. Devo ter andado mais de duas horas naquilo. Para terminar em grande estilo arranjei maneira de me perder quando cheguei ao alcatrão (que toda a gente sabe que faz muito mal), a 800 metros do parque de campismo. Segui as fitas da caminhada. Veio uma carrinha da organização atrás de mim que me colocou no bom caminho, e soube-me muito bem terminar 30 minutos depois do fecho da prova, com pessoas a saudarem no pórtico e a festejarem comigo como se de uma vitória se tratasse. Que obviamente foi. Cereja no topo do bolo só a companhia e ajuda do sempre muito simpático casal Manuela Cruz e Paulo Fernandes. Um luxo.

O que fiz mal? Falta de treino mais regular, com mais antecedência em relação à prova, e longões. Mas a vida de atleta amador tem destas coisas e por isso nunca me iludi e estava preparado para tudo. Se para qualquer prova de trail é preciso estar muito preparado, para a Freita é preciso ainda mais, e apenas para a conseguir terminar.

Talvez lá volte. Gostava de a fazer dentro do tempo regulamentar. Alguém se candidata :)?


http://runkeeper.com/user/miglsd/activity/201956610?&tripIdBase36=3c8mpu

5 comentários:

46 disse...

Impressionante. Bem tento imaginar o que terá sido a prova, mas não consigo.

Certamente que a prova, pelo menos a partir de certa altura, é mais mental que física. Não percebendo nada de trails, esta questão da distância é claramente coisa muito relativa.

Parabéns Miguel pela prova e a todos os outros que se atreveram a estar na partida.

O relato é brilhante, como sempre.

Obrigado,

AC

Patrícia Calado disse...

Pela minha parte, ofereço-me para te dar umas lições de corrida em alcatrão, sem sair da rota! Quanto ao resto, os meus parabéns por esta loucura, não é, de facto, para o comum dos mortais!

João Ralha disse...

Miguel,

Excelente relato, muito bem escrito e bem detalhado que nos leva a percebermos a "enormidade" que é fazer uma prova como a Ultra da Freita. Só ao alcance de grandes atletas com capacidade física e sobretudo mental, muito acima da média.

Parabéns a ti a a todos os participantes, com especial realce para os nossos companheiros Run 4 Fun. Estou seguro que o João Guerra lá estará, para o ano, para "matar o borrego"

Runabraços

Cesar Moreira disse...

Parabéns,

Com essa descrição ganhaste mais de uma centena de desistências r4f no próximo ano, eu incluído. :)

Acho que devias deixar a lama durante uns tempos, pelas 18H de prova ja deves ter a pele bem tratada.

Muitos parabéns campeão!

Teodoro Trindade disse...

Bravo atleta, essa é uma prova de outro mundo, e tu estiveste lá.
Parabéns a todos, são uns heróis.