As voltas da (in)sanidade


Para Einstein, insanidade era fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

Muito se poderia dizer sobre esta frase, aparentemente relacionada com zonas de conforto, aversão à mudança ou crenças incompreensíveis, mas a verdade - conceito este também ele muito discutível e subjectivo, já que cada um percepciona a “realidade” a partir dos seus cinco limitados sentidos e a interpreta, a sente e a ela reage de acordo com os filtros criados pelas suas experiências de vida - é ainda mais complicada, considerando que alguns de nós nem sabem muito bem o que querem, ou querem aquilo que não sabem que querem, ou querem o que não dizem que querem.



Depois desta introdução absurdamente abstrata e complexa, sentem-se confusos? Perfeito, já entraram no espírito da primeira e, esperemos nós, última edição das voltas da insanidade. Um treino sem juízo no qual algumas pessoas se propuseram a fazer 100 kms de uma só vez, completando o desafio semanal do Ultra Endurance das Orange Series e replicando a violenta distância máxima da Freita. Em Monsanto. E outras propuseram-se a acompanhá-las.

O desafio era simples, no papel. Dar várias voltas com partida e chegada ao parque de estacionamento dos bombeiros de Monsanto, no máximo 20 kms, no mínimo 5, até somar 100 kms. Na prática, foi uma insanidade.



20 atletas e mais 3 voluntários participaram. 6 atletas completaram os 100 kms. Eu, Carmelita (Carmen versão Gipsy Kings), Teodoro, Raposo, Kip da rocha (a.k.a. Wonderboy a.k.a. João P Sousa) e Lafões (a.k.a. Velho a.k.a. Luis Afonso). Os dois últimos em estreia absoluta nos 3 dígitos. Mas não se pense que quem não completou os 100 kms fez pouco. Alguns abdicaram do seu sono para correr mais de 40 e 60 kms durante a noite. Outros perderam tempo a fazer canjas e favas para os abastecimentos e outros houve que, mesmo não tendo feito um único km, estavam na base de vida - assim baptizado o parque dos bombeiros para parecer mais sério - pouco depois do nascer do sol com croissants quentes mistos, uma box de sumo de laranja natural e um termo cheio de café quente. De bica, não do solúvel. E ainda houve o clássico saco do atleta com brindes. Vejam as fotos e saberão de quem falo. Imaginem o padrão dos recoveries R4F em todos os abastecimentos e estarão perto de perceber o difícil que se tornou arrancar para cada nova volta. Talvez, por tudo isto, eu não lhe chame treino, nem prova, mas sim missão. 
























Nem sei porque tive tão parva ideia, mas talvez tenha sido porque precisava de uma meta. Decidi no início deste ano que deixaria trabalhar pelos objetivos de outros, de ter horários fixos e de estar amarrado a uma secretária. Quis o bicho que também deixássemos de sair de casa, de ver e abraçar os nossos pais, familiares e amigos. Deixámos de poder treinar em grupo e correr em provas. As voltas da insanidade foram o murro na mesa. Pela nossa sanidade.

Cada um saberá porque participou, mas diria que todos participaram porque se sentiram desafiados ou só porque acharam que seria divertido. Cá para mim, acho que a proposta era tão estapafúrdia, tão impensável, que se tornou imperdível. De tal maneira, que até tive que apertar com a promoção do evento, em linha com o apertar das medidas restritivas mais recentes e mesmo assim, corremos na ilegalidade durante alguns kms. Contrariamente ao desejado, não foi possível oficializar o evento junto de todos os R4F e por isso, o meu pedido de desculpas. Estou certo que muitos mais teriam participado de alguma forma nesta loucura.

Muito haveria a dizer sobre cada um, mas prefiro dizer que ninguém, nem por um instante, pensou ou sugeriu desistir, naquele que terá sido o mais idiota dos desafios. De uma coisa podem ter a certeza. Já corri em provas muito piores e a pagar.

Deixo-vos com o que de “melhor” se ouviu na longa noite by D.J. Insane Xico.





Comentários

João Ralha disse…
Estamos em tempos diferentes, de descoberta. E de resiliência face aos desafios da pandemia. Os "insanos" responderam positivamente, com novos objetivos e conquistas. Fantásticos, com uma legião restrita de apoiantes. Vão sobreviver a estes tempos difíceis.
Carmen Ferreira disse…
Eu adorei, consegui andar as voltas e fazer paragens mais demoradas na base foi uma aprendizagem, obrigada Pedro e a todos os que nos acompanharam, ESTOU PRONTA PARA OUTRA ��
Rui Faria disse…
Riveras Insano,

Excelente relato. Como sempre.
Estás a ficar fortíssimo nas iniciativas e na organização.
Depois do grande treino no Cabeço veio agora esta insanidade. No inicio pensei que dificilmente terias companhia para te acompanhar do principio ao fim. Mas eles andem aí....

Vejo aí o espírito necessário para integrares a direcção R4F 2021.

O desafio ou a missão têm a tua marca... um passo à frente do que a cabeça diz que é e as pernas são incógnita. Contigo é preciso cuidado.

Carrega!

Teodoro Trindade disse…
Que coisa mais absurda: voltinhas em Monsanto.
Nunca imaginei que alguém pudesse querer fazer isto, e só porque sim. Mas bastou dizeres e logo se juntaram uma mão cheia de "aficionados da poda". E não é que resultou!

Obrigado Pedro, que venha a próxima.