Ultra Trail da Serra da Freita – “YOU ARE NOT A RUNNER”

O Ultra Trail Serra da Freita seria um treino para o Celéstrail, prova de 83 km com 5.000m D+, integrada no Andorra Ultra Trail Vallnord.

Um treino de 65 km a três semanas de Andorra?!? Sim, em ritmo de power walking permitido pelo tempo limite da prova de 28 horas, aplicável às duas distâncias (65 km e 100 km).
Rui Faria, Luís Afonso, Ruben Costa e eu alinhámos “em grupeta”. GRU-PE-TA.

No final da primeira subida encontrámos o organizador da prova, José Moutinho “aquele que é conhecido por muitos como o pai do trail em Portugal”. Ali nos explicou a razão de ter organizado duas provas, tão diferentes, com o mesmo tempo limite de 28 horas:

- Elite Trail Serra da Freita - 100 km com 6.600m D+ - Destinada à Elite, atletas com preparação e capacidade para fazer uma prova devidamente descrita numa placa de aviso: ”Vais ser comido, mastigado e regurgitado pela Freita
- Ultra trail Serra da Freita - 65 km com 3500 D+ -Visava integrar os atletas que gostam de trilho puro e duro, com piso irregular, subidas e descidas verticais, paisagens variadas, de uma natureza pura, com poucos sinais de presença humana, que pudessem ser apreciadas e não apenas percorridas. A distância e o percurso teriam que ser desafiantes, não acessíveis a todos, contudo, o risco da barreira horária seria minimizado. Ou seja, uma prova para atletas de longa distância, que não são elite. Nem sequer “meia-elite”

Imediatamente recordei a história que o Luís Afonso me havia contado sobre a Mirna Valerio, uma ultra runner, norte americana. Um dia, a meio da corrida da Carolina do Norte, decidiu parar e fazer uma selfie, para os fans do Twitter, quando recebeu a seguinte mensagem de um total estranho: You are not a runner" 

De forma não maldosa, já ouvimos comentários deste género. Críticas e sentenças nas quais se estipulam tempos mínimos para que uma maratona se classifique como tal ou em que se desconsidera o trail running pelo facto de se fazerem troços a andar ou outro sem número de items que visam qualificar ou desqualificar um corredor, como corredor.


No último ano fui barrada no segundo corte do Louzantrail, por 11 minutos. Tinha percorrido 27 km e 2261 m de D+. Na Ultra do MIUT desisti com 45 km e 4073 m de D+ feitos, a 30 minutos da barreira horária.

Naturalmente tenho-me questionado sobre a minha capacidade para fazer provas com este nível de dificuldade, quando anteriormente não tinha qualquer dúvida de que terminaria, e terminava, outras ultras. Estarei a perder capacidade física ou mental? Ou o nível de exigência estará a aumentar, estando os organizadores apostados em criar provas exclusivamente para a elite e “afins”? 

“I´m not a runner”? Mas, bolas, é disto que eu gosto: distâncias longas, piso técnico, subidas e descidas vertiginosas a incógnita de saber quem ganha: eu ou a montanha?

De facto nem todas as provas são acessíveis a todos. E não temos as mesmas capacidades. São diferentes os anos de corrida, e de experiência, bem como o tempo e a capacidade para treinar, a genética, o poder económico para investir em massagens, suplementos alimentares, treinadores, roupa, calçado e equipamento adequado. São tantas as variantes que, logo na partida, alinham seres humanos automaticamente divergentes, em termos de investimento e de capacidade.

Naturalmente sabemos quem é a Elite. Mas a questão é saber se, não sendo elite, e dentro das nossas enormes diferenças, e capacidades, somos corredores. E saber se, neste grupo dos "não-Elite", é mais corredor aquele que tendo melhor genética, mais experiência, mais hipóteses de treino, obterá melhores resultados finais na classificação, ou atingirá maior distância, ou se, pelo contrário, é mais corredor aquele que, estando condicionado por vários factores,tem uma vontade férrea e inabalável para chegar ao final. E chega! Como a Mirna Valerio. 

Ou saber se são corredores, em igualdade qualificativa,aqueles que, partindo com diferentes condições, atingem o mesmo final, embora com tempos diferentes.

Na prova Elite Trail Serra da Freita-100 km partiram 150 atletas. Apenas 77 passaram no segundo controle. Terminaram 76 atletas.

Na Ultra 65 km dos 155 atletas inscritos terminaram 149.

Ao criar duas provas diferentes, com o mesmo tempo limite, para tipos de pessoas diferentes, o José Moutinho respeitou as diferenças. E contrariou a tendência que se tem verificado em quase todas as provas de trail, em Portugal: provas cada vez mais duras, com barreiras horárias mais apertadas, ou seja, cada mais circunscritas à Elite. (É este o caminho?!?!?)

O José Moutinho também respeitou os “não Elite”. E esta lenta e pequena “não Elite” passou a respeitá-lo e a admirá-lo. E a Serra da Freita ganhou uma nova apaixonada.

A Freita é para os amantes dos trilhos. Até mesmo a aproximação a Arouca, já nos limites da povoação, aproveita todos os troços possíveis para fugir aos estradões e à estrada. É trilho e trilho!


A subida da Besta (dos percursos de “escalada” mais incríveis que já fiz até hoje, a trepar e a subir pedras, com arvoredo cerrado sobre a cabeça e água a escorrer e a bater-nos na cara e no corpo) marca para sempre. Disse o Luís Afonso que é uma parque de diversões. Diz-se que o Rúben foi cuspido pela Besta, no final do percurso. Tem 400 m D+ em menos de 1 km de distância, com quase 50% de inclinação média















A descida às Porqueiras: descida interminável até ao rio num trilho verde, muito inclinado com raízes, mas lindo, lindo!!!






As Escadas do Demónio: 800 degraus de pedra, irregulares, correspondentes a 400 m de D+..















A subida após a Lomba, em direcção ao Pico da Gralheira, com uma inclinação brutal, que me pôs aquele estúpido sorriso permanente na cara, sempre que sofro o sadismo da organização.







A chegada às Pedras Parideiras (que fenómeno geológico incrível e exclusivamente português).Vale a pena googlar!

A Cascata da Frecha da Mizarela ao pôr-do-sol (que gravação na retina!!!). A passagem numa zona de precipícios (grrrrrrr! Porquê? Porquê?).



A descida, a pique, com Arouca à vista ao longe, muito longe…e sem se aproximar…km a km…e Arouca ainda longe.

Um trilho lindo, e interminável, às duas da manhã, com o rio sempre a cantarolar, ao nosso lado (estou farta do rio! Tanto rio! E as casas? E Arouca?).







A meta às 02h.41.

20:41:19 de prova. A prova “onde tudo começou”

Objectivo de treino de caminhada cumprido.


Objectivo de grupeta quase cumprido: reagrupamento nos abastecimentos e ritmos pessoais a imporem-se, necessariamente, numa distância tão longa e em tempo tão dilatado.


Objectivo de FUN cumprido a 100%: a melhor chegada RUN 4 FUN de todos os tempos. Obrigada Rúben Costa! - https://www.facebook.com/sandra.simoes.98/videos/o.664744843947093/10215242095747269/?type=2&theater&notif_t=video_processed&notif_id=1562238348443111


Sim, WE ARE RUNNERS!

Comentários

Filipe Torres disse…
Yes, you are! Parabéns, bela prova e dissertação sobre a mesma. Boa sorte para o Celestrail, vais adorar Andorra!
Teodoro Trindade disse…
Neste aspecto, que importa o que dizem que somos?
Somos efectivamente o que queremos, o que podemos, o que nos apetece, enfim o que nos dá prazer. E esse prazer não se esgota no tempo limite das provas, perdura, e se valer a pena vai ficar para sempre registado na nossa memória. Pela tua crónica tenho a certeza que foi esse o caso. Formaram uma "grupeta" memoravel.

Obrigado pelo relato, muito bom.