Os Jedi da lama


Obi Wan Kenobi definiu a força como a energia universal, presente em tudo e em todos, que rodeia, penetra, une e mantém tudo ligado. Enquanto corria no Trilho de Belas, pareceu-me óbvio. A força e a lama são a mesma coisa.  
Vamos por partes. Presente em tudo? Sim, nos ténis, nas meias, nos calções, na camisola, nos bolsos, nas pernas, nas mãos, na cara e no cabelo. E em todos. Conhecem alguém que saia de uma prova de lama, sem levar alguma para casa?

Rodeia e penetra? Rodeia cada passada. Penetra nas unhas. Preenche os rasgos da sola e mantém-nos unidos ao chão, seja pelo peso extra, seja pela falta de aderência que nos leva a cair de nádegas, de cotovelos ou, nos casos em que a força é forte num indivíduo, de cara. E quando a lama se torna num obstáculo muito difícil, como por exemplo, numa inclinada subida com corda, é vê-los todos unidos, por vezes de mãos dadas, a puxarem-se mutuamente enquanto patinam ladeira acima. 
Na força, há quem ceda ao lado negro. Na lama é igual. Há quem se deixe levar pela raiva de não ser capaz de dar dois passos seguidos de jeito e diga “foda-se, vou andar”. E há quem ceda ao medo e trave. Lembram-se do que Obi-Wan sussurrou ao Luke, momentos antes deste despejar dois supositórios no traseiro da Estrela da Morte? “Confia na força, Luke. Deixa-te ir”. Podia perfeitamente estar a falar de lama.

Em conclusão, se corres na lama por tua própria iniciativa e ainda pagas para o fazer, se confias na lama e te deixas ir sem travar, se te enterras nela até à cintura e não te desvias, então, não tenhas dúvidas. És um jedi da lama. 

Por esta altura, será surpresa para poucos que o trilho de Belas foi uma corrida na lama. Também estava bem sinalizada, havia o normal nos abastecimentos e o percurso é bonito. Por vezes, a lembrar abutres, mas daqueles acabados de sair do ovo. Muito engraçada a ladeira de lama com uns 2000% de inclinação auxiliados por uma corda. Pena o engarrafamento que gerou já com mais de 6kms de prova. Também muito engraçada a passagem pelo interior das ruínas de uma fábrica. E já agora, ficam a saber que um dos ícones desta prova pelo qual passámos, o aqueduto, é o mesmo que todos conhecemos do vale de Alcântara e que termina na Mãe D'Água nas Amoreiras. Além do castanho, também o verde esteve sempre presente, com a linda Sintra quase sempre à vista. Eu e os meus colegas R4F (Pedro Machado e Gonçalo Melo) terminámos a prova e foi bom voltar a acabar em força e sem cãibras.   

Que a lama esteja contigo. 

Comentários

João Ralha disse…
Grande criatividade. Este magnífico texto deveria, na minha opinião, constar do nosso livro no capítulo Trilhos. Parabéns, Pedro Ribeiro pelo texto e pela enorme boa disposição que dele emana
Gonçalo disse…
Genial! Acabo de perceber que eu pertenço aos sith!
Sandra Simões disse…
Sith é mais parecido com o tarmac, Gonçalo. Eu diria que a lama e o verde são mais conceitos da Aliança. Pedro Ribeiro o próximo texto pode ser a Irmandade da Lama. Elfos e hobbits, our precious, montanhas e Torres Parabéns de novo
phfm disse…
Gostei, Pedro!
Concordo com tudo excepto a parte final, pela 1ª vez experimentei cãibras!
Lutei contra elas para terminar, ainda estou dorido!!
Rui Faria disse…
Grande relato Pedro.
Pelos vistos a lama também é inspiradora. Pelo menos em ti. ��
O Zé Carlos Mello havia de gostar dessa prova.

Parabéns pela prova e por este belíssimo texto.

Venha a próxima...
Teodoro Trindade disse…
És um criativo Pedro.
O texto está uma delicia, parabéns.

Fico à espera dos próximos episódios.

LamAbraços.