domingo, 28 de maio de 2017

O meu 1/2 UTSM 

Inscrevi-me no UTSM para fazer os 100 km sem grande convicção. A distância é muito grande e até agora a maior distância que tinha feito era 48km, menos de metade da UTSM e com menos desnível.

Para me motivar, o meu amigo Rúben disse que, se me arrependesse, podia pedir o downgrade para a prova de 50 quilometros. Pensei nisso algumas vezes, mas comecei a treinar para fazer a prova completa. 

Aproveitei alguns treinos sob a orientação do "Sherpa" Raposo e aumentei os acumulado semanal para 50 a 60kms. Os treinos consomem muito tempo, mas se resultarem permitem ganhar confiança e capacidade para fazer a prova com menos sofrimento. Do meu clube, Run 4 Fun, fomos 12 aos 100km. 

Comecei o programa sem muita convicção, mas fui fazendo os treinos. Até que no dia 4 de Março tive uma lesão na perna direita. Não foi muito séria, uma contractura, mas levou tempo a recuperar, reduzindo os treinos. Não parei totalmente, mas entre a paragem, e voltar ao ponto de forma onde estava passaram dois meses. Março quase parado e Abril em progressão lenta para não voltar a lesionar-me no regresso à normalidade. Perdi os treinos mais longos, não fiz o fim de semana dos 60km, Os 30 no Sábado e 30 no Domingo para mim foram a ver "televisão".

As duas provas 50 e 100km partiam a horas diferentes. Por causa da logística, mantive a ideia de ir fazer a prova dos 100.  Ficava satisfeito se chegasse aos 50. Tudo o que fizesse dai para a frente seria ganho.


Como se trata de um esforço grande, todo o material tem que ser prático e fácil de usar. Percebi que a mochila que tinha não permitia acesso fácil aos bolsos onde iam as barras e o gel. Também descobri que os meus amigos levavam todos bastões e eu não tinha. A juntar ao material em falta estavam dois pares de meias, que para uma distância grande é importante, por causa da bolhas que aparecem muitas vezes. Aproveitei também para comprar um par de ténis para distancias maiores, os meus Bushido estavam gastos e são para trajectos mais curtos. Comprei uns Ultra Raptor que foram fantásticos. 

Consegui comprar tudo... foi para cima de um dinheirão, mas fiquei satisfeito com o material e vai dar para muitas provas. Só gostava de ter conseguido comprar uns bastões black diamond, mas só havia online e eu precisava de os experimentar para confirmar a altura.

Detesto fazer a mala, e para uma prova destas fazem-se múltiplas malas. A mala da roupa civil, a mala da roupa de partida, inclui roupa, barras e gel, frontal, manta térmica, apito, pilhas suplentes, power bank para o telemóvel e relógio GPS, remédios para urgências, isotónico... são muitas coisas. A maior parte a duplicar no saco para trocar, que fica disponível no posto de controlo 6, aos 63km.

Na noite da partida, fui preparar-me com tempo, já sei que demoro mais do que o comum dos atletas. Depois de ter visto as três pilhas suplentes perdi-as. Procurei muitas vezes, mas não encontrei, perdi imenso tempo. Só as voltei a ver em Lisboa no fundo de uma mochila. Felizmente não foram necessárias, o frontal aguenta 15 horas em modo económico, e só usei durante 5 horas.

Fui o último RUN 4FUN a entrar em pista, ainda faltavam 30 minutos para a hora da partida, que foi à meia noite.



Fotos e mais fotos, com o grupo. O nervosismo da espera, ... partimos. Éramos 486, e sentia-se algum aperto. Íamos trocando umas palavras, que o ritmo inicial tem que ser controlado para estas distancias. Fui com muitos R4F até ao PC1 (posto de controlo 1). Entre o PC1 e o PC2 fui ficando com outros atletas, mas segui sempre em grupo.

Perto do quilómetro 20 tive uma câimbra. Aconteceu quando acelerei para ultrapassar um atleta que ia à minha frente num ritmo ligeiramente mais lento. Parei para esticar o músculo  e voltei a correr tentando proteger a perna que tinha sofrido a câimbra. Fui me lembrando dessa perna algumas vezes, mas com o passar dos quilómetros deixei de ter a sensação de dor. Parece que nestas provas ultralongas é muitas vezes assim, as dores vêm e vão.

Foi nesta altura que acabei por me separar dos meus amigos R4F, com que vinha desde o início. O Teodoro voltou para traz para saber o Jorge. E nós fomos continuado mas os ritmos separaram-nos.

Cheguei ao PC2 integrado num grupo de atletas que não conhecia. Encontrei o Orlando que estava quase de partida. Abasteci a água, descansei um pouco e comi também pouco.

Partir para uma etapa iria fazer quase sozinho. Era noite, mas a presença constante de outros atletas fazia com que nem lembrasse se era noite ou dia.

Foi nesta etapa que entendi o valor dos bastões.  O sobe e desce estava a tornar-se mais forte. A subida para as antenas era íngreme estava escuro e notava-se bem a diferença de andamento de quem tinha bastões e quem se deslocava sem bastões, que subia com mais dificuldade.

O percurso parecia interminável. Perdi algum andamento. Fui sendo ultrapassado por grupos mais animados que vinham a conversar. Ainda pensei em me juntar a algum deles para não me atrasar. Como não os conhecia e o ritmo era superior ao meu resolvi poupar-me. Ainda estávamos no primeiro terço da prova.

Devagar continuei a subida. A meio estava uma fogueira com um grupo de escuteiros à volta que animadamente cantavam para nos alegrar. Essas distrações ajudam a passar o tempo, e quebram um pouco a solidão de quem vai sem companhia.


E lá fui com os dois bastões monte acima, até chegar ao ponto 3, onde pouco tempo depois chegou o Rúben.

Ainda parti antes dele, mas rapidamente me alcançou e ultrapassou, imprimindo uma velocidade que eu não quis acompanhar. 

O dia já clareava a partir deste momento já não usei mais o frontal, não era preciso.

Fui apreciando a vista pois estávamos num ponto alto e à vista era bonita. Iniciamos uma grande descida. Passado algum tempo foi apanhado pela Sandra, o que foi para mim uma alegria, finalmente tinha alguém com quem conversar e trocar umas ideias. Ainda melhor foi quando a Sandra me disse que o Gonçalo vinha pouco atrás. Esperei por ele e conversamos, e lá fui mais animado conseguindo agora imprimir um ritmo mais vivo. Fomos assim os três, às vezes um à frente dos outros outras vezes totalmente ao contrário, e em breve o PC 4 estava à vista. Lá nos esperava uma revigorante canja de galinha.


Ainda vimos o Ruben entrar no posto. A pausa foi maior do que as anteriores. Já estava cansado mas ainda sentia energia para continuar.

Tinha definido que gostava de fazer pelo menos 50 quilómetros. Se fizesse um pouco mais, 60 já ficaria satisfeito. Nos 60 avaliava, se tivesse pernas continuava se não tivesse parava e deixava as distâncias maiores para uma próxima aventura.

Mas o percurso ia pregar uma partida no km 44/45 com dois corta fogos muito inclinados e difíceis de subir. Com ajuda dos bastões lá fui subindo e fazendo umas pausas, mas perdi distância para os meus companheiros de etapa. Estes atrasos acontecem por vezes, não são um problema, quando chegasse uma zona mais plana iria correr e tentar recuperar a distância perdida. Só que no fim do primeiro corta fogo uma dor no joelho esquerdo impediu-me de continuar a correr. Desanimei, o meu ritmo ficou mais lento mesmo a andar. Mas fui continuando e de vez em quando tentava correr, mas o joelho acusava e voltava andar. Fui alcançado pelo Teodoro que me tentou motivar, mas eu tinha decidido, ia terminar no próximo posto. Sem correr não me estava a ver a chegar ao fim, sozinho.

Surpreendentemente numa das tentativas de correr o joelho deixou de doer, ainda antes de chegar ao posto de controlo. Mas eu já tinha decidido, estava muito sol, muito calor e não ia continuar.

A chegada mais emocionante em sprint

Apesar de tudo tinha atingido o meu primeiro objectivo, fazer 50 quilómetros. Visto agora, à distância, desistir foi talvez uma precipitação, podia ter continuado e até talvez passasse do posto seis. Não foi assim cheguei ao posto cinco, parei, perguntei se podia desistir ali e disseram que sim mas que teria que esperar pelo carro que me iria levar de regresso a Portalegre.

Não há dúvida de que temos que passar pelas experiências para aprender. Sei hoje mais do que sabia à meia noite do dia da partida.Fiquei com vontade de repetir esta ou outra prova por estas distâncias.  Preferia uma tivesse menos  corta fogos, pois não me entusiasma particularmente a dificuldade pela dificuldade.

Entusiasma-me a aventura de viajar de um ponto para outro, pelos caminhos que as pessoas normalmente utilizam para fazer esses percursos, sejam eles difíceis ou fáceis. É isso que procurei na próxima aventura pelos trilhos em que me meter.

Obrigado a todos pelo incentivo, companhia a loucura.

PS as fotografias foram tiradas por varias pessoas, e também por mim. O texto foi ditado e escrito pelo telemóvel, pelo que teve algumas gafs que corrigi posteriormente.



4 comentários:

Run4Fun R4F CE disse...

Alfredo,

Belo relato, gostei muito.

Foste grande!! Parabéns!

Rui Faria

Teodoro Trindade disse...

A próxima não te escapa Alfredo.

Um abraço
Teodoro Trindade

Jorge Paulo disse...

Excelente descrição! Grande aventura! Parabéns Alfredo!

João Ralha disse...

Belo relato. Parabéns Alfredo por teres conseguido atingir os teus objetivos. Está visto que vais voltar, para concluires os 100km :). Runabraços