quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O destino baralha as cartas, e nós jogamos

O destino baralha as cartas, e nós jogamos
Arthur Schopenhauer, Filósofo, 1788/1860

NOTA PRÉVIA: Este texto reflete a visão muito pessoal de um indivíduo que correu a maratona pela primeira vez. Qualquer semelhança com a descrição de uma corrida é mera coincidência. Apenas os nomes foram omitidos para proteger os inocentes.

Adoro não saber o que o amanhã me traz.

Adoro me perder seja na Serra de Sintra ou no centro histórico de Lisboa e encontrar novas alternativas para sair de lá.
Adoro variar os treinos, umas vezes tipo hamster na estrada sempre ao mesmo ritmo, outras vezes como predador no meio do mato atrás da sua presa.
Adoro quando o destino nos prega partidas inocentes levando-nos a desviar da linha recta que traçamos.
E adorei quando alguém colocou no facebook que a Vodafone estava a oferecer inscrições para a Rock’n’Roll Lisboa através da sua app para smartphones.
Minimaratona?! Fora de questão, os meus treinos mais pequenos são maiores que isto. Meia maratona?! Já perdi a conta a quantas fiz, mas é uma opção muito boa. Maratona?! Elá, estão a oferecer dorsais para a maratona? Não sei… talvez… tenho de pensar… E enquanto pensava já o meu dedo tinha escorregado para a inscrição e na caixa do correio tinha o email da organização a dar-me os parabéns pela inscrição na MA-RA-TO-NA!



Maratona. Maratona. Maratona...
Distância mítica para celebrar o percurso que Feidípides fez de Maratona a Atenas a anunciar a vitória dos Gregos sobre os Persas. Caso a batalha tivesse desfecho inverso as mulheres que ficaram em casa deveriam matar os filhos e suicidarem-se de seguida, o que daqui podem calcular a urgência dele em chegar a casa. Tinha originalmente cerca de 40 kms, mas foi fixada em 42.195 metros nas Olímpiadas de Londres de 1908 porque a família real queria ver a partida dos jardins do palácio de verão, e lá se teve de estender a prova mais uns metros.
Ah, um pequeno aparte, parece que antes de fazer essa distância, Feidípides percorreu 240 kms em menos de 2 dias a pedir a ajuda militar de outras cidades gregas. Mas isso é outra história, e quem tiver interesse pode pesquisar por Spartathlon.

Mas o que fui fazer? Inscrição de impulso numa prova que é o dobro da distância que corro, e de vez em quando? Ainda por cima, quando faltavam 30 dias certinhos e sem treinos para a prova? AI, AI, AI! A inscrição foi gratuita, mas no dia 6 de Outubro os kms tinha de os fazer a meu custo! Mas, também se não fosse assim, nunca daria este passo pois teria de investir muito tempo em treinos, e isso… é coisa que me falta.


Podia fazer uma narrativa descritiva dos acontecimentos: de como comecei lá atrás e fui passando por vários pacemakers e gente conhecida; de como achei ridículo ter de pagar 50 cêntimos para a viagem de comboio quando a anunciavam gratuita; de como levei ameixas secas e tâmaras para ir trincando a cada 5 kms; de como utilizava mais água para refrescar a cabeça que para beber; de como treinei em 30 dias; de como cravei vaselina para os mamilos a outro corredor; de como nunca me doeu qualquer músculo ou articulação, durante ou após a prova; de como não comi massas, arroz, batatas, cereais ou outra forma de carboidratos nos 6 meses anteriores; de como não encontrei o muro; de como a temperatura esteve altíssima do princípio ao fim; de como é uma barbaridade começarem uma maratona às 10 horas; de como, de como, de como…

Mas o que realmente quero escrever aqui é muito mais importante que a corrida, no seu sentido restrito. É algo que só se sabe quando se experimenta e muito dificilmente se passa através da escrita. É do calor humano que nos une, dos amigos e da família. Daquele pequeno pormenor que faz toda a diferença, que nos comove e aquece por dentro.


Tantas caras conhecidas, a começar logo pelo gestor de frota que me acompanhou estoicamente do principio ao fim com paciência de Jó. Ora puxas tu, ora puxo eu, ora fazemos de emplastros à boleia doutros.
Na corrida propriamente dita só pensei nos primeiros 2 minutos entre o sítio que me encontrava até passar pela linha de partida. A partir daí foi um deslizar entre amigos. Até os pace makers conhecia! E os que iam atrás deles também! Afinal o mundo da corrida é mais pequeno do que pensamos, e quanto maior a distância, maior a partilha e menor o grupo.
Passei por ultra trailers, desde bancárias que teimam chegar atrasadas aos eventos, àqueles que até em Monsanto se perdem, por brasileiras que quase só treinam de madrugada e por novas maratonistas acabadinhas de fazer infiltrações ao joelho. De tudo um pouco, de pessoas que conheço melhor, outras nem por isso.

Vi, ainda a distâncias consideráveis da meta, colegas que esperavam pelos maratonistas e que teimavam em nos acompanhar mesmo em curtos espaços. E que bem que sabia! Houve muitos que me ajudaram: quem me levou a bater o PBT na meia maratona (e que eu estraguei o joelho ao oferecer-lhe um dorsal para a UMA); uma diretora de uma empresa de Biotecnologia; o nosso incansável organizador de boleias nos Olivais; e quem me convida sempre para ir fazer rampas a Sintra e não vou. Desculpa, mas vou tentar ir. E não pares de me convidar, por favor.


E na última parte, uma lebre de luxo, um ultra R4F com provas acima dos 150 kms a quem tive o prazer de estar sentado ao lado no último almoço, explicar a minha dieta e ver a cara dele a perguntar-se “Estás a brincar comigo, não estás?”

E à beira da estrada? Ofereceram-me marmelada e comi! Oh não, marmelada não faz parte do que como, mas com essa amabilidade como poderia recusar? Come e siga para a frente! Encontrei a gorda 1, gorda 2 e gorda 3 dos treinos Monsanto ao lado direito, bancárias e advogadas, que de gordas só alcunha, que, de resto, quase não as apanho. E ao lado delas uma física que dá aulas de gestão de operações. Senhora física, tenho uma dúvida sobre o Universo! Se a 2ª e 3ª Lei de Kepler se aplicam ao Sistema Solar e as leis físicas são válidas em todo o Universo, porque razão elas não se verificam a nível das galáxias e mais além? Será que existem universos paralelos em que a massa existe, sente-se mas não se vê? Será essa a explicação para a matéria e energia negra que teima em não aparecer? E por falar em Monsanto, até o organizador Húngaro lá estava, perto da meta, com a mais recente farmaceutica corredora. Oh senhora farmaceutica, tem de fazer mais séries e rampas que de cada vez que corro ao seu lado está sempre a arfar!


Tantos sorrisos, tantos gritos. Uma sensação indescritível. Parecia que conhecia toda a gente e que toda a gente me conhecia a mim: Uma formadora em Dreamwaever, pessoal amigo (muito amigo) dos últimos treinos com quem dei no duro. Até os meus primos lá estavam.

Mas também sofri bastante, podem crer que sofri, quando passava por caras muito bem conhecidas em esforço, em sofrimento, a deixarem-se ficar parar trás a correr ou a andar. Alguns estreantes, outros não.

Olha ali! Uma professora de matemática que me disse que Pi não é construtível e, logo, a quadratura do círculo é impossível. E que há alguns números irracionais que não o são e fiquei com a sensação de todos os racionais o serem. Mas, sendo assim,⅓ é construtível e a trissecção do ângulo também é possível, o que sabemos ser falso. Há algo de errado neste raciocínio, e não sei qual é Srª. Profª. Aguardo a próxima aula para esclarecer isto, assim como discutirmos uma demonstração elegante para o UTF e se P = NP. Se conseguirmos isto, temos prémio Nóbel à vista. Nobel não! Que o amor da vida Nobel preferiu um matemático a ele, e assim a matemática foi excluída da lista. Mas sempre temos a medalha Fields.

E a cada quilometro mais próximo da meta maior o envolvimento, maior a emoção. Uma sensação de crescendo, de explosão controlada, de aceleração a cada face, a cada árvore, a cada pedra que se encontra pelo caminho. A mente, curiosa, fervilha de pensamentos, conjeturas, teses e ensaios, só faltando ver os elefantes cor de rosa. Até pensei num modelo rápido para avaliar as obrigações cotadas em bolsa, recorrendo a comparações de YTM entre corporativas e governamentais. Tudo isto enquanto uma perna se vai colocando à frente da outra num ritmo cada vez mais frenético.
Tantas caras conhecidas a apoiar-me. Sim a apoiar-me! Gritavam o meu nome! O meu?!?! Estariam doidos? Estaria eu doido?
Meu Deus, onde me fui meter? Loucos que correm, loucos que nos amam, loucos que nos querem bem.


E de repente, assim como começou… terminou. Cheguei à meta com enorme alegria. Também! Com isto tudo, como poderia ter sido de outra forma?
Hão de haver mais, mas a primeira, é sempre a primeira.

ADOREI

Muito obrigado a todos os que me ajudaram e gritaram esganiçadamente por mim. E muito obrigado a ti que leste isto tudo até aqui. Deve ter dado uma canseira!

E assim se passaram 42.195 metros.
Resultado final, só para registo: tempo de chip 3:53:05; 584º em 1836 que terminaram.

Paulo Raposo

14 comentários:

João Ralha disse...

Paulo Raposo,

De facto cansou ler, mas ficou muito bem, afinal demoraste quase um mês a escrevê-lo.

Curioso como somos (alguns como tu) capazes no meio do cansaço e de algum sofrimento, de fixar tantos detalhes.

És um felizardo, não ficaste com "andar novo", sem dores, deve ser do regime alimentar e dos treinos em Monsanto e lá para os Montes Saloios.

Obrigado pela partilha e parabéns pela conquista.

Runabraços

46 disse...

Caro Paulo,

fizeste um grande resultado. Parabéns.

E temos artista. Tens de fazer mais cronicas.

Um grandes abraço,

AC

Ricardo Oliveira disse...

Parabéns Paulo! E conseguiste criar ordem no universo ao chegares primeiro que eu! Ainda não sei bem é como... Da próxima estás lixado :D
Estou a brincar claro!

anci disse...

Valeu a pena esperar pelo teu relato :-)
Não tens de correr maratonas regularmente, mas pf escreve!

PS: Quando encontras as respostas para as tuas perguntas específicas, partilha, sff, com aquela física inútil...

Paulo Martins disse...

Paulo foste rápido na maratona, lento a escrever o relato, mas que relato brilhante, acho que está na hora de publicar um livro sobre as corridas!!! Muitos parabéns pela tua 1. de muitas mais!!!

Miguel Serradas Duarte disse...

Bravo!

Orlando Ferreira disse...

Culpado... e por ter o privilégio de ser referenciado nesta obra literária, fiquei com o ego dum tamanho...
O facto de não teres preparado atempadamente a tua estreia na maratona, ainda abrilhanta mais o teu notável feito. Estás sinceramente de PARABÉNS.
No pouco tempo que te acompanhei deu para perceber que vinhas bem divertido e bem "fresquinho"; e se não te acompanhei durante mais tempo foi porque, além de vires já acompanhado, não conseguiria seguir ao teu ritmo, vinhas mesmo muito bem.

Por fim dizer apenas que se viste muita gente conhecida é porque a tua maneira de ser/estar na vida e nas corridas é sinónimo de alegria, companheirismo, amizade.
Parabéns e obrigado.

Patrícia Calado disse...

Nem sei o que escrever, depois de ler o teu fantástico relato!

Parabéns pela maratona, é evidente!

Mas, sobretudo, obrigada por tudo o que tu nos dás, fazes do Run 4 Fun um grupo muito mais rico!

Bjs!

Miguel San-Payo disse...

Muitos parabéns. Agora já só falta terminares a 2ªmaratona para te tornares MARATONISTA.

Catarina Peixoto disse...

Mais uma vez volto a dizer muitos parabens, fizeste uma excelente prova. é sempre uma honra correr na tua companhia.

Gosto de correr mas sem duvida o facto de correr com pessoas fantasticas faz me ter forca para levantar do sofa mesmo quando a preguiça querer vencer, obrigada por seres uma dessas pessoas.

Obrigada pela partilha a luz, pela fisioterapia quando é precisa, mas ainda mais pela tua presença :) eu juro que vou esforcar me nas series e rampas para te acompanhar

beijinhos e ate a proxima corrida :)

Rui Faria disse...

Paulo, grande prova que fizeste.

Confesso que fiquei meio aturdoado aqui com o teu relato. Estava dificil seguir o teu raciocinio. Mas lá descobri o equilatero onde estavas e acabei por te seguir com prazer no relato dessa que foi uma grande aventura.

E pelo que percebo dos relatos que tenho lido existem muitas maneiras de nos prepararmos para ela.

Tu treinaste com rigor e acabaste por tirar partido disso no dia da prova. Divertiste-te bastante.

Não justificava o nervoso miudinho que senti quando passei por ti nos primeiros km e trocamos galhardetes. Acabaste numa passada segura e larga no final quando passaste por mim.

Continua a treinar com rigor e sabedoria, e a escrever da tua forma natural. Não te ponhas a ler manuais sobre escrita. (heheh. rio porque noto que tens uma grande vontade de apreender tudo)

Parabéns. Venham mais maratonas.

Manuel Romano disse...

Agora percebo porque demoras a decidir-te, é para fazer bem feito!
Foi necessário esperar para te iniciares na maratona e olha no que deu! O relato demorou mas o que acabo de ler é excelente. Parabéns

Pipinha disse...

Excelente! Parabéns! :)

Alfredo Falcão disse...

Paulo, quando passaste por mim percebia-se que ias muito bem. Parabéns por mostrares como se usufrui de uma maratona e por escreveres assim!