quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Maratona... de palavras...


Três dias depois assenta a poeira... Já consigo andar e pensar. Talvez já avido para outra aventura. Vou tentar partilhar com o grupo esta experiência maratonista. “De Golfista a Maratonista” tá na moda. Parafraseando o nome de um grupo musical “Dead Can Dance”

Fica já abraços e beijinhos aos bravos, valentes e destemidos aventureiros recentes maratonistas. Um sincero obrigado aos fervorosos, atentos e grandes companheiros RUN4FUN, incluindo também aqueles que agora só o são por sentimento,  e que nos apoiaram antes, durante e depois desta brincadeira. Prostro-me perante a vossa disponibilidade.

Fica também já o recado para todos os futuros maratonistas. “É duro... treina... principalmente da cintura para baixo.”

Partilho principalmente o motivo porque embarquei nesta aventura, alguns momentos e pensamentos durante e depois da prova e eventualmente os efeitos pós maratona. Espero não me esticar muito.

(Já olhaste para baixo e viste a extensão do texto? Deixo a versão curta para os mais apressados: Foi difícil, gostei de ter atingido objectivos, muito cansaço no final, grande apoio dos RF4, para o ano vamos ver se ha mais.)

Não é motivo para pedir desculpa, mas fica a nota porque não fiquei indiferente, ter feito Aaaaa.... MARATONA (haha) sem partilhar minutos com os “nossos” que me fui cruzando. Estava em ritmo diferente. E tem tudo a ver com Almonda.

“Que puta de maluqueira 4h”. Transcrita a mensagem que enviei a Filipa logo após ter terminado. Descalçado e deitado no chão tentava abrir a dura casca do gelado. (Já agora podiam entregar o gelado já descascado. Que falta de profissionalismo)  Estava todo roto.

Tinha aqui um draft todo catita que escrevi na 2ª Feira para postar aqui a experiência, mas vou antes seguir o felling do momento.

Uma vez um rapaz foi surpreendido pelo excesso de cansaço quando trilhava uma tal de prova do Almonda. Cansado e desesperado e com a sua miúda sofriam muito nos últimos quilómetros. O rapaz pela primeira vez praguejava como nunca havia feito em nenhuma prova anterior. Foi tão difícil que para ele desistir nos últimos 500m não estava fora de questão, bastava que houvesse uma boleia.

Nos dias seguintes ainda praguejava aquela prova, de tal forma que até nos treinos o rapaz vestia  a tshirt alusiva ao evento.

Ao fim de poucos dias percebeu que para enfrentar algumas aventuras precisava de ter disponibilidade física extra, ou pelo menos o mínimo exigido.

A ele normalmente não importa o cronometro ou a distancia. Desde que seja bom.

E descobriu que podia ajudar a rapunzel na sua subida a terras do Porto para concretizar o objectivo de fazer a maratona. Uma formula mágica. Era preciso enfrentar uma dificuldade identica, e ter a noçao do que é preciso para tentar concretizar com sucesso. Só assim podia mandar bitaites. Para isso precisava de deixar de lado a preguiça e fazer a maratona de Lisboa perto do meu limite.

Foi este o motivo principal de se ter inscrito nesta maratona. Inscreveu também a Filipa.
Foi por isso também que não abrandou para confraternizar com os outros R4F durante a prova. Evitava ficar folgado.

Dias antes: Mal viu o percurso pela primeira foi assolado pelo pensamento “isto é muito longo. É uma loucura.” E sempre que lhe mostravam o mapa tentava minimizar esse pensamento.

Foi fazendo uns treinos aqui e ali mais assiduamente, e tentou não claudicar na alimentação.

A maratona: Teve momentos interessantes. Começou tranquilo como sempre. Acompanhado da rapunzel, também ela tranquila que ainda hoje nem se deu conta que não fizemos aquecimento. Mesmo depois de no dia anterior estar com algumas maleitas estava bem.

No Km 3 aumentou o ritmo e sentiu fluir a passada. O primeiro pensamento e foi constante durante quase todo o percurso. “Falta buéééé. Ordena lá ai as prioridades. Nunca te esqueças disso.”

No km12 estava muito confortável. Em plena corrida tirou e abriu o “camelo bag” e atendia uma chamada di mamãe. Havia fôlego para dois dedos de conversa.

Passou por alguns companheiros R4F. O cumprimento da ordem e seguia.
Lembra que passou pelo único R4F que não cumprimentou. A Joana Barros ia do outro lado da rua concentradissima na subida e de phones, que deviam estar a bumbar, por causa do ritmo. (tens uma passada particular Joana. Os pés levantam bastante do chão)

O César Moreira, preocupado e atento (imagino o pensamento “este gajo está louco. Numa primeira maratona nesse ritmo?!!” eu sei que não foi assim César.), deu-lhe o toque para ver se o demovia daquele ritmo. Para logo depois dar o seu aval. “Se te sentes bem assim... Vai”. “Vai” é diferente de “Força”.

Foi logo a seguir que meteu conversa com um atleta transeunte que se mostrou disponível para a palheta e acertar passadas. Armindo, o homem com um artefacto artificial no coração e que tinha que controlar o ritmo cardíaco abaixo das 160 pulsações por minuto. Sem recurso à tecnologia, olhou para o Armindo e disse-lhe que ele parecia estar bem e não devia de estar com mais de 150ppm. O Armindo confirmou, no seu big relogio que estava 150 exatas.

Foram na palheta alguns bons kms.passaram sem esforço a bandeira que marcava as 3:45h

Hora de continuar sozinho, Shake hand no Armindo, a 5.05km/m, as pulsaçoes dele subiram para as 160 constantes.

Laranjinha no asfalto. João Veiga. (Deduzo que tenha vindo sempre abaixo das 3:45h). Trocaram galhardetes e o “De Golfista a Maratonista” continuou cheio de vontade. E o pensamento... “Falta buéééé”... hahah

Recorda-se de ver as vistas, mas não consegue precisar, quando passou nem quando.
Até ao km 28 sentia-se bem. Já tinha parado duas vezes para atar os atacadores. Coisas simples como dar dois nós nos atacadores não tinham lugar naqueles momentos. Básico.

Desse vez, na 24 de Julho em Santos, parou para aliviar a bexiga. Recomeçar já não foi a mesma coisa.

Pela primeira na prova surgiu-lhe a palavra “Parede” “Wall”. Se iria acontecer ou sentir? Focou-se na estratégia de antecipar esse momento caso surgisse. Antecipar significava estar atento aos sinais do corpo e mente e reagir antes do descalabro.

(há uma musica do Jorge Palma com uma letra muito fix. Oiçam. Alguns vão sentir um arrepiozinho se associarem a momentos de superação que já tiveram na vida. Chama-se “Passos em Volta” Trauteei para a Filipa, no primeiro dia das nossas vidas)

Chegada triunfal ao Cais do Sodré. Se ainda não era já a meta parecia. Os laranjinhas em massa. Rostos amigáveis, felizes e sorridentes alegraram-lhe e encheram-lhe o ego. Forte apoio moral. (Gracias)

Nuno Tempera, vindo não sei da onde, chegou-se a ele um pouco mais a frente. Falou-lhe das dores e do peso que sentia nas pernas nesse momento. Eram fortes mas nada de mais.

O Nuno lembrou-lhe que os ténis que tinha trazido para a corrida tinham esse efeito.
Ele, “o maratonista” já os tinha testado antes da prova e sabia que não era só isso. Aliás, até aí estavam excelentes.

Na entrada na Praça do Comercio o Nuno abrandou e criaram distancia.

30km... não sentiu a “a parede”  mas a visão de ver muitos atletas a andar e a parar foi má vibração. O primeiro pensamento que teve foi “vou também parar de correr e andar um pouco” Foi o que fez, na viragem nos restauradores. Havia algum publico atento ao esforço dos atletas e estavam fortes nos incentivos. Foi o sentiu.

Foram poucos passos a andar, e retomou a corrida.
Antes de chegar à praça do comercio outra vez, pensou que se trocasse as sapatilhas pelas que trazia no camelbak seria uma forma de quebrar a monotonia e as ideias menos positivas e talvez ainda aliviasse os músculos que até ai estavam a carburar.

Sentou-se no passeio e trocou as sapatilhas. Nos primeiros passos sentiu logo que tinha podia ter errado. As pernas pareciam duplamente mais descalibradas do que com as outras.
Ficou a dúvida. Seria uma questão de metros até a adaptação. Foi o que pensou.
Mentira. Nunca mais sentiu adaptação nenhuma. Aceitou que tinha errado. E aproveitou para soltar a língua. Praguejou.
Foi sempre a perder força e aumento de dores.

Só andou mais uma vez numa troca de abastecimentos. Para ele esta parte foi um grande esforço mental. Mais que físico.
Pensamentos relâmpago, outros que demoravam eternidades porque eram em câmara lenta.
Felizmente os pés, em passadas lentas, saiam do mesmo sitio.

Havia 3 pensamentos no meio daquilo tudo. Evitar pensar “Falta buéééé” não era altura para ele ter esse pensamento.
“Tens que aguentar isso e chegar ainda com forças no final para voltares atrás”.
E havia um que tentava organizar tudo isto e arranjar pequenos estímulos.

Por exemplo sincronizou-se numa passada rápida com mais dois atletas e o som das passadas era musica. tum...tum tum..tum... Estava giro. Acho que ele aguentava aquilo até fim. Infelizmente para ele o da esquerda saiu da parada, mais a frente o do meio, e ele ia pelo mesmo caminho.

Não sei o que se lhe passou na cabeça, mas contrariou isso com um poderoso arranque de pés, que lhe valeram um arrepio na espinha dorsal. Dorou 500m talvez, o arranque. O arrepio foi instantâneo. (pena)

Os 3 pensamentos levavam-no para mais perto da meta.

Novo animo laranjinha. Km40 acho eu.
Duas fortes presenças. Alinharam-se os dois com ele. João e Jorge... Esquerda e direita. Nessa altura, falava, e corria mas era tudo vago. Lembra-se da dar a garrafa de agua que trazia ao João. Na outra mão trazia geis. O gesto de carregarem aquela garrafinha de água por ti parece irrelevante. Mas não é.

O João sugeriu que jogasse agua para dentro do chapéu e colocasse na cabeça. Estava tudo bem. Voltaram ao ponto de apoio e ele continoou.
Mais a frente novo animo laranjinha. Apoio feminino RF4, numa curva, tipo rally. Cá está... meta a vista... as pernas pesavam... cheio de animo...

Os pensamentos negativos nesta fase querem protagonismo. Já tinha corrido 41km. Como é que o facto de estar a chegar e não ver a meta num alcance de 400m podia influenciar?!

(Estou cansado só por me lembrar...).

Depois foi chegar a meta, comer o gelado, dois dedos de conversa com outro atleta, iam chegando laranjinhas, visivelmente cansados como ele.

E foi com motivação que voltou atrás no percurso para acompanhar a sua raponzel...

Run Abraços


10 comentários:

nemagiev disse...

Que estreia em grande...chegaste bem e para primeira ias folgado...tenho pena de não me ter conseguido colar a ti mas as pernas tavam aos berros...até à próxima prova pelos vistos contigo em grande forma

Rui Faria disse...

Obrigado João. Fazemos um dia destes uma corrida juntos. Noto que estas cheio de potencial e cheio de vontade de melhorar. Força nos treinos. Ainda não tinha comentado, mas vi os teus videos a tocares guitarra. Tocas bem. Eu dou uns toques mas muito fraquinho.

João Ralha disse...

Rui,

Belo, emocionado e detalhado relato de um maratonista que logo na sua 1ª ficou abaixo das 4 horas e ainda teve forças para voltar atrás para "rebocar" a companheira nos km finais.

Fantástico casal Rui e Filipa que fizeram ambos no Domingo, a sua 1ª maratona.

Parabéns a ambos e descansem pois fazer duas maratonas quase de seguida, não deve ser fácil.

Runabraços

PS

Falta a foto no relato!!

Rui Faria disse...

Obrigado João Ralha. É bom sentir a tua presença no momento certo. Espero poder retribuir sempre que for possivel.

PS: Excelente escolha da foto

Cesar Moreira disse...

VAI.... é bem melhor que força :)

vai, significa que tens força e capacidades. Dizer força, muitas vezes podia ser interpretado como achar que não tinhas capacidades :)

Por isso, VAI que esta já está.

Parabéns Maratonista

Abraço

Rui Faria disse...

Obrigado grande Cesar. VAI... Foi isso que interpretei. VAI, no sentido que estamos a falar ainda associei ao teu aval de confiança. Por isso gostei de ouvir. (no porto é que vai ser tramado. BAI) Abraço

Miguel San-Payo disse...

Parabéns pelo resultado. Agora já só falta completares a segunda maratona para te tornares MARATONISTA

ManuelaC disse...

Parabéns Rui,
Gostei imenso de ler o teu relato e de te acompanhar ao longo dos 42km!! ... o que ias sentindo, o que ias pensando, sensações positivas e outras menos agradáveis que tu ias superando.
E no fim foste buscar a Filipa!! Impecável!!! Gostei!
Beijinhos

Rui Faria disse...

Obrigado Miguel San-Payo. Irei tentar certamente completar uma segunda maratona em outro registo.

Rui Faria disse...

Obrigado Manuela. A ideia é um pouco essa. No fundo quem lê as cronicas dos novos maratonistas, percebe um pouco o ambiente mental e fisico para completar esse feito.

Já agora... achei curioso este texto:"
Correr os 42.195 metros de uma maratona já foi considerado como o maior limite da resistência do ser humano. O significado quase místico dessa prova originou-se com a desventura do soldado grego que morreu após percorrer tal distância."

Beijinho