quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A primeira (maratona) é para acabar!

Partilho convosco aquilo que para mim foi a melhor experiência da Maratona de Lisboa: a camaradagem espectacular e fantástica daquilo a que eu chamo a tribo Run 4 Fun.
Um grande obrigado ao Grande Vitor Aguilar, que uma primeira vez tentou rebocar-me a uns 3km da meta e que depois lá "conseguiu" que eu fosse os últimos 1,5km/2km a correr até à meta.
No ultimo reboque o Run 4 Fun Angola também ajudou, o meu obrigado a esses desconhecido "angolano".
Pelo caminho a sensação de que nunca os Run 4 Fun estiveram, ou estariam, sós, a lembrar o hino do Liverpool: "you will never walk alone", que aqui foi, e muito bem, nunca estivemos a correr sozinhos.
Grande apoio dentro e, acima de tudo, fora da prova, muito boa a "recepção" na Expo.
Mas isto foi o fim, em agonia, já passavam das 14h, de uma prova que foi grande em tudo.
Os dias antes foram de frenesim e "receio", o que será que ai vinha?

Para um estreante como eu, que apenas começou a correr a "sério" em Junho do ano passado, fazer uma Maratona era algo de grandioso.
O respeito era muito.

E é ainda mais agora.
"Ouvi" muito os experimentados nestas andanças, Fernando Rosete, Pedro Gil Morais, João Góis Gomes, João Ralha.

Podem não ter notado, mas fui tentando ouvir tudo aquilo que diziam, e o que não diziam.
Fui lendo e ouvindo outras estórias e histórias por ai.
Fui-me mentalmente preparando para o grande dia de 6 de Outubro.
Nessa manhã o despertador tocou pelas 6h, às 7h30 havia encontro com Run 4 Fun's na Expo, para apanharmos o metro e depois o comboio e para estarmos em Cascais pelas 9h e picos.

Ufa, isto num dia normal já dava para cansar um comum mortal.
Até às 10h05, hora da partida, foi a chamada "sessão de aquecimento para encher chouriços".

Aqui não se aquece nada de jeito, a malta quer é começar a correr e o quanto antes.
10h05, tiro de partida.

Finalmente!
Era chegada a hora!
Agora íamos ver se tínhamos homem ou não.
Os primeiros quilómetros eram para ter sido feitos a 5m30, mas a pica da partida leva sempre a sua adiante, e comecei a correr ao ritmo 5m15, 5m10, até que passa por mim a bandeira das 3horas e 30.
Tinha treinado para fazer 3h e 30, era um objectivo muito ambicioso para um estreante.

Nas ultimas 2 semanas tinha ponderado, pouco, mas tinha, baixar o objectivo para as 4h.
Queria chegar antes das 4h. "Porra, 4h é muito bom!", pensava eu.
E não me importava de chegar com este tempo.
Durante a preparação para a maratona, que durou 4 meses, "ouvi" a determinada altura a frase "A primeira é para acabar", e  agora, nos últimos dias antes da "grande" Maratona, comecei a achar que a frase fazia todo o sentido, e que este "novo" objectivo seria um muito bom tempo.
Mas o sacana da bandeira das 3h30 passou por mim e "picou-me", "vamos lá atletas, juntem-se, vamos lá".
E eu fui.
Grande viagem que fiz com este homen que levava a bandeira dos 3h30.

Fantástico o espirito que conseguiu imprimir durante todo o tempo que o consegui seguir.
Não deixava de incentivar o grupo que o seguia, depois de cada abastecimento tentava que o grupo se agrupasse, dava dicas de hidratação e alimentação, dizia para guardarmos energias, para não nos esticarmos...
Tiro o meu chapéu a este homem.
A passagem por Cascais foi 5 estrelas, a marginal até Oeiras, foi 5 estrelas, até a estranha "entrada" para Oeiras foi 5 estrelas, tudo foi sendo 5 estrelas.

Na passagem pela "meia-maratona", já quase em Algés, até levantei os braços a comemorar o meio da prova.
Estava bem, muito bem. Tudo estava 5 estrelas.
Tive um camarada Run 4 Fun que me acompanhou neste grupo na bandeira das 3h30 durante muitos, muitos quilómetros.

O Emanuel Silva também era estreante e tinha mais ou menos os mesmos objectivos do que eu. Fizemos ali uma "aliança".
Falámos da experiência maratona, da vida, de coisas, tudo ajudava a passar o tempo.
Fui puxando pelo Emanuel, o Emanuel ia puxando por mim.
A entrada em Lisboa também foi 5 estrelas, a aproximação ao Terreio do Paço é que começou a ser menos estrelas...
Até ai estava tudo a correr bem, estava a hidratar-me e a meter gel conforme mandam as regras, mas...
Tive que começar a abrandar o ritmo pelos 32km, e abrandar bem, a subida do Terreiro do Paço até aos Restauradores nunca me pareceu tão longa.

O sol a essa hora estava a pique, não havia sombras nem vento.
Foi aqui que me "desliguei" do Emanuel.
A "aliança" desapareceu, estava tão perto da "desorientação" que mentalmente só pensei em mim.
A descida ainda ajudou um pouco, mas o muro estava próximo.

Aqui perdi por completo o Emanuel.
Aos 34km acabou, parece que o corpo desligou, a cabeça ainda disse por mais alguns metros "vamos meu, corre homem!".
Lembrei-me do mexicano que na Parede, uns muitos quilómetros antes, dizia para si, mas em voz alta, o que arrancou uma pequena gargalhada no grupo: "bamos cabron, hijo de putana, bamos!"
Mas uns poucos metros à frente, as pernas baquearam, pequenas, muitas, intensas, caimbras, não me "deixavam correr"...
Não cheguei a parar, continuei a andar, a ritmo acelerado, e a pensar: "que merda! porra! não acredito! estava tudo a correr tão bem! levei com o muro! pensava que era só com os outros! eu estou em forma! o que é que eu fiz de mal???"
Por 2 ou 3 vezes tive vontade de parar, mas nunca o fiz.
Nesta altura pensei "porra, esta merda é para acabar", a primeira é para acabar!

Não conseguia correr e ia a pé até ao fim.
Mas faltavam 7 a 8 km!
Mas tinha que acabar.
Todo o esforço e dedicação de cerca de 100 treinos, cerca de 1000km, as muitas manhãs e noites que foram feitas a correr, as "falhas" junto da família, mereciam apenas que eu terminasse.
E lá fui eu.
Até ao km 36 foi uma desgraça, nem andar direito conseguia, as costas "obrigavam-me" a fazer corcunda.
A partir do 36km até ao 40km foi sempre a andar e num ritmo mais baixo, já conseguia andar relativamente bem e direito.
Muitos Run 4 Fun tentaram puxar por mim mas não dava.
Muitos feridos, estropiados, empenados, tortos eu vi pelo caminho, nenhum "morto", vi muita gente como eu a dar o berro, pura e simplesmente, mas a querer e a conseguir continuar.
Estava a chegar à Expo e comecei a sentir o "apoio" Run 4 Fun, fabuloso mais uma vez!
E como que por magia comecei a sentir que afinal poderia correr os últimos metros, estava a sentir ainda qualquer coisa nas pernas.
Resolvi experimentar começar a correr, devagar, muito devagar, e de facto comecei.
Lá fui eu os últimos 1,5km em ritmo de jogging, arrastado pelos camaradas Run 4 Fun, até à entrada da reta da meta.
Ai senti uma força inexplicável, comecei a correr com mais força, acho que até fiz um mini sprint...
À chegada à meta a explosão de sentimentos: "estou em casa", "boa homem, és grande", mas acima de tudo, "a primeira é para acabar!".
Sou um Finisher!
Para a história fica o tempo, a bater na próxima oportunidade, que quero que seja o quanto antes (Sevilha já mexe comigo):
Tempo Chip 4:13:40
Tempo K10 0:50:29
Tempo K21 1:45:35
Tempo K30 2:30:25
Tempo K32 2:41:02
Tempo K33 2:52:41
Tempo K36 3:17:27
Tempo K40 4:02:42
Classificação Geral: 945



5 comentários:

Paulo Curto de Sousa disse...

Parabéns Pedro! Excelente relato... obrigado pela partilha... forte abraço!

João Ralha disse...

Pedro,

Belo e emocionante relato que dá boa ideia de tudo o que passa pela cabeça, quando encontramos o "Muro".

Mas a tua determinação foi mais forte que a dor e com o 2º fôlego conseguiste chegar a correr e nota bem!! Coseguiste PBT.eheheheheh.

Parabéns e estou certo que Sevilha será melhor.

Runabraço

Rui Faria disse...

Pedro, bom relato. Não passei por tanto como tu. O meu foi mais soft. Mas tinhas um objectivo muito forte, bastante ambiocioso e determinado. Valeu a tua determinação como disse o João Ralha.

Miguel San-Payo disse...

Parabéns pelo resultado. Agora já só falta completares a segunda maratona para te tornares MARATONISTA

Miguel San-Payo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.