segunda-feira, 30 de setembro de 2013

III Grande Trail de Serra d'Arga


© Eduardo Correia

Não deve haver mesmo amor como o primeiro, porque é sempre um prazer enorme voltar à Serra d'Arga. Tem feito parte da minha evolução no trail, e é das poucas que me vejo a repetir porque parece ter sempre algo novo para me dar. Como diz o José Moutinho (o homem da Freita) nos trilhos a regra principal é manter um espírito aberto, e isso ficou provado logo ao km 6 com um entorse no pé esquerdo (tenho uma linda batata, que evolui muito bonita nas cores da estação, castanho escuro a virar para cinza e preto :D). Da mesma forma que não se viram as costas ao mar, também nos trilhos não se deve baixar a guarda, nem quando o terreno parece plano e pouco acidentado e apetece admirar as vistas. Se até ali me sentia muito confortável e a fazer a prova muito ao meu gosto, tive então que estabelecer objectivos diferentes. Decidi tentar chegar pelo menos a São Lourenço da Montaria e ver se tinha que me ficar pela metade da prova. Valeu-me a experiência semelhante que tive em Alvaiázere, e a seguir à dor forte e ameaços de vómitos veio primeiro muito desconforto e depois uma certa dormência no pé, que me permitia quase correr em plano e subir bem, mas que tornava as descidas e o piso mais irregular um sacrifício. Como ia conseguindo progredir com bastante margem sobre o corte da prova decidi tentar terminar, se não acontecesse mais nenhum percalço e me sentisse minimamente bem, que foi o que aconteceu. Demorei foi quase 8h a virar o frango.

O tempo esteve bera, não tão mau como na primeira edição mas mesmo assim a fazer mossa. No entanto, sinto algum prazer em superar condições destas, adversas, e que nos obrigam a um espírito de sacrifício e superação grandes. E teve pelo menos um aspecto positivo, o de não vermos a verdadeira extensão dos estragos provocados pelos fogos. Uma lástima. Pensei muitas vezes no facto de o ambiente marcar e definir as pessoas, e que ali se forjava parte do que é ser Minhoto, Transmontano ou Beirão. Gente que tem que ser rija e generosa para lidar regularmente com aquela geografia e tempo. E que devia pensar no que raio passava pela cabeça daqueles malucos, para se irem enfiar na serra naquele dia. Acho que nem os próprios saberão responder, o espírito da modalidade não é fácil de definir mas entranha-se com facilidade e reconhece-se facilmente na cara de quem corre ao nosso lado.

E gosto das pessoas com quem me cruzo. Da partilha de boleias, das conversas, dos jantares e petiscos, das histórias. Dos Run 4 Fun sempre presentes e a apoiar, dos Esquilos sempre bem dispostos e com uma palavra amiga para toda a gente. E da Filipa. Não sei mais nada a não ser o nome próprio dela, mas ajudou-me tanto a terminar a prova como eu a ela. Fomo-nos cruzando durante a percurso, parecia muito ligeira e confortável, mas no abastecimento dos 35k (? Arga de Cima? Não tenho a certeza…) fui dar com ela a sentir fortes tonturas e fraqueza, seguida de alguma desmoralização que me impressionou um bocado. Os bombeiros (não devem ter demorado 5 minutos a aparecer, impecáveis) viram a tensão e a glicemia e não acharam nada de anormal, deram-lhe uma manta térmica para se aquecer e colocaram-lhe a hipótese de terminar ali, tal como os voluntários presentes. Não era vergonha nenhuma mas estava a custar-lhe muito não terminar a sua primeira prova de 45k, soube depois que tinha investido bastante na preparação e percebia-se que desistir não era coisa fácil para ela. Por isso sugeri fazermos o resto da prova juntos, atitude que tinha tanto de altruísta como de egoísta também. As desgraças alheias aligeiram as nossas e fomos coleccionando os kms que faltavam com cuidado e paciência, ela primeiro com algum receio e frio mas a recuperar lentamente a confiança, e a enfrentar os petiscos que faltavam com muita força. Acho que tivemos o pior do temporal nesta parte do percurso, e duas subidas que apesar de tudo fizemos muito bem, inclusivé a ultrapassar alguns atletas. A confiança acumulada foi tanta que a descida final foi feita de forma bastante rápida (tinha na memória o que sofri na edição anterior e queria vingar aquele troço), em amena cavaqueira acerca dos ténis que usámos serem da mesma marca, da dureza da prova e da beleza dos trilhos, dos filhos, de tudo e de nada, e de podermos agradecer um outro por termos a meta à vista. Assistir de perto e ao vivo ao que ela sentiu ao cruzar a meta foi a cereja no topo do bolo, só visto para se perceber. Parabéns Filipa! E parabéns a todos os que estiveram na serra, e fizeram e continuam a fazer do GTSA uma das minhas provas preferidas, a minha peregrinação anual a Meca :).

Claro que para o ano há mais ;).

Abraço do Miguel Serradas Duarte.

6 comentários:

António Arede disse...

Miguel, fantástico relato e espirito, Parabéns pela prova e pela partilha :)
Esta será uma das provas que quero fazer em 2014.
RunAbraço

João Ralha disse...

Miguel,

Excelente, comovedor e como de costume bem-humorado (apesar de tudo...) relato do que é fazer uma ultra em condições adversas e com problemas físicos.

A solidariedade entre atletas é certamente uma das características distintivas das corridas em trilhos.

Parabéns por mais uma conquista e obrigado pela partilha.

Runabraços

Rui Faria disse...

Excelente Miguel. Relato intenso, quase que me fizeste pensar que foi facil. Parabens.

ManuelaC disse...

Oh Miguel,
Gostei muito de ler o teu relato ( e conseguiste terminar mesmo depois de torcer o pé!!!)
Este ano estava inscrita mas não pude ir! vingar-me-ei para o ano!!!
Obrigada pela partilha
Manuela C

José Carlos Melo disse...

Parabéns Miguel. Gostei muito deste teu relato.

No ano passado eu fiz os 21 kms e gostei muito do percurso, principalmente dos slaloms escorregadios à beira do Rio Âncora, que este ano não houveram.
Nesse ano nem tinha achado o percurso particularmente difícil.

É claro que tinha que voltar á Serra d’Arga. Desta vez para conhecer o percurso completo.
Agora eu fiquei convencido que esta prova é bem dura.

A quantidade de pedra logo após o km 21. Tanta pedra dura ao longo de toda a serra! A chuva, os caminhos cobertos de água, o frio, o vento,…
O nevoeiro e a enorme extensão de terra queimada não ajudaram nada, não permitiram apreciar a beleza da serra.

Vá lá… Tive a oportunidade de conhecer o percurso completo, tendo a companhia na parte final da Carla André e de outro companheiro que não fixei o nome. Apesar de ter feito o percurso com uma velocidade estilo tartaruga.

Parabéns a todos os que se aventuraram neste desafio. Tenham feito bons tempos como se aquilo não custasse nada, ou não tenham tido a oportunidade de concluir, seja porque motivo for…

É claro que um tipo de prova como este não satisfaz as minhas papilas gustativas. O que me dá um grande prazer são outras coisas.

Mas foi muito desafiante. E gostei muito enquanto desafio. Até pode ser que regresse e ainda com mais vontade.

RunAbraços.

Teodoro Trindade disse...

Bom bom, mesmo bom é conseguirmos todos estar lá no próximo ano.

Obrigado Miguel, és um bravo atleta.