segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ronda 101km: Puerra, que prueba!!


A ideia de ultrapassar a mítica barreira dos 100km surgiu por ter feito 50 anos e necessitar de um marco. Aproveitei a participação dos excepcionais Carlos Melo (a lebre), Teodoro Trindade (o trepador), Jorge Esteves (o comedor) e Nuno Tempera (o benfiquista) e consegui inscrição através de uma “cunha” via Figueira da Foz e Madrid.
No início da prova, estávamos todos cautelosos com o muito calor (+25ºC) e com a distância (não se consegue treinar). A minha maior distância tinha sido de 52km percorridos em 7h57mn no Trail de Sesimbra e por isso preparei a minha mente para 18h de prova.

Logo após o arranque, o Carlos Melo (a lebre) desapareceu e ficámos os restantes 4 RUN 4 FUN. No entanto, a alegria constante habitual do Nuno Tempera (o benfiquista) não estava presente. Quem já correu provas com ele, está habituado a ouvir hinos ao SLB e “bocas” permanentes. Mas neste dia estava algo apagado e foi a primeiro a sentir a dureza da prova. Ao km 25 (3h20mn) já tinha uma bolha no pé (apesar das sapatilhas serem as habituais) e de vez em quando atrasava-se para depois voltar a recuperar. Entretanto corria connosco um atleta que sempre que bebia líquidos, dava um arroto.
A estratégia para esta prova foi simples: caminhar em todas as subidas e parar em todos os postos de abastecimento. Estes são bastante frequentes e dispõem sempre de água, isotónica e fruta. Eu levei um Camel-Bag e enchi-o várias vezes durante a prova para nunca me sentir desidratado. Nesta altura e a conselho do Jorge Esteves (o comedor), comi uma sandes de presunto “Pata Negra” que tinha sido preparada no Hotel. E como sempre, estava presente  o atleta que sempre que bebia líquidos, dava um arroto.

A prova foi decorrendo normalmente até que pouco antes do primeiro grande reabastecimento, o Nuno Tempera (o benfiquista) percebeu porque é que é mesmo do SLB: urinou vermelho. Nesta altura convenceu-se que algo não estava bem e aproveitou um ponto de abastecimento para se dirigir ao posto médico que o aconselhou a desistir. Tenho a certeza que em 2014, o Nuno e a Joana Peralta estarão a correr esta prova. Neste mesmo ponto o Jorge Esteves (o comedor) aproveitou a urbanidade do local e fez aquilo por que ansiava há muito: dar uma cagada e beber uma imperial. Entretanto continuava connosco um atleta que sempre que bebia líquidos, dava um arroto.
 
A seguir começaram as subidas e eis que o Teodoro Trindade (o trepador) saca de uns bastões ultra-modernos em carbono, ar-condicionado e ABS e com os 4 membros (2 pernas e 2 bastões) deixa o resto do grupo para trás e passa a ganhar o prémio de montanha.

Chegados finalmente a Setenil (km 56 e 8h31mn), fomos recebidos pelos nossos acompanhantes e casal Ralha (inexcedíveis no apoio). Aqui mudam-se as meias, massajam-se os pés com creme, coloca-se o frontal, come-se e descansa-se. No entanto existem muitas filas e estamos neste abastecimento durante 45 minutos. O Carlos Melo (a lebre), só demorou 10 min. Mais uma vez ouvimos o atleta que sempre que bebia líquidos, dava um arroto.
O próximo objectivo era chegar ao Quartel (km 77) onde haveria comida quente. Até lá ainda vimos dois elementos de uma equipa a fumarem uma ganza enquanto corriam (provavelmente para acalmar os “nierbos”). O que também víamos constantemente era atletas com cãibras e pés cheios de bolhas. Ao Jorge Esteves (o comedor) só lhe doía o peito do pé desde o km 10 mas que não lhe tirava o apetite.

Chegados ao Quartel (km 77 e 12h27mn) quem é que nós encontrámos: o atleta que sempre que bebia líquidos, dava um arroto. Aqui levantámos a última mochila que incluía umas sapatilhas, t-shirt, meias, calções, lycra manga comprida, corta-vento, luvas e pilhas. Só mudei as meias e vesti a lycra por baixo da t-shirt Run 4 Fun. Acrescentei também uns pensos ao que já tinha no pé esquerdo desde o km 67 e preparei-me para uma dor permanente até ao fim. Nesta zona de descanso estivemos 1h15mn pois o Jorge Esteves (o comedor) comeu tudo o que havia e ainda ficou a olhar para o meu prato a ver se podia picar. O Teodoro Trindade (o trepador) comeu tão depressa que teve uma quebra de tensão temporária. Mas rapidamente recuperou e comeu o iogurte que me pertencia (estes 2 colegas são danados para comer).
A partir daqui sabíamos que só faltava uma Meia-maratona. E acreditem que tínhamos de ultrapassar uma subida com mais de 2 km e 13% de declive que nos ajudava a aquecer a seguir ao repouso. A partir daqui, onde muita gente desiste, o objectivo estava praticamente alcançado. Só que devagarinho se faz o caminho. E lá fomos correndo (pouco) e andando (muito). E aqui tenho de fazer uma confissão: um dos nossos atletas foi controlado em permanência pela mulher que telefonava hora-a-hora com a seguinte pergunta: onde estás e a que horas chegas? E ele lá fazia uma previsão da hora de chegada. Os espanhóis que nos acompanhavam só diziam “ Puerra, que control dos cónhos, puta madre”. Ao mesmo tempo este controlo era confortável pois sabíamos que estariam à nossa espera na chegada.

Por fim, lá avistámos Ronda e a sua última subida com 1,5km. No fim desta e antes da meta, lá estavam as nossas companheiras de viagem cheias de alegria assim com o casal Ralha prontos para correrem connosco o quilómetro final na principal rua de Ronda. E acreditem que é lindo correr àquela hora da madrugada sabendo que o objectivo a que nos tínhamos proposta estava alcançado: passar a mítica barreira dos 3 dígitos. E quem cortou também a meta? O atleta que sempre que bebia líquidos, dava um arroto.
 

11 comentários:

Jorge Esteves disse...

Miguel,
Grande relato! Fartei-me de rir enquanto o lia. Está um pouco exagerado porque nem eu comi tanto (sobrou o pão) nem o atleta arrotador fez tantas pausas!
Foi uma jornada inesquecível e estou pronto para lá voltar, Vamos a isso?
É obrigatório referir o apoio que nós recebemos:
- o João e a Luísa foram extraordinários (uma vez mais),
- o Nuno que apesar do azar lhe ter batido à porta esteve presente no final e não foi descansar enquanto não chegámos, acompanhado da Joana,
- a Guida, a Luísa e a Elsa que nos acompanharam e estiveram lá.
Para mim foi isto que mais me marcou e é talvez o melhor dos Run 4 Fun: a solidariedade, a amizade e o apoio constante. A "nossa" prova foi vivida intensamente por todos, e inclusive alguns que de Lisboa nos faziam chegar o seu apoio. Obrigado a todos!

António Arede disse...

Fantástico relato, já deu para dar umas valentes gargalhadas :)))) Infelizmente o Nuno saiu um 'pouco' mais cedo :( mas acredito que para o ano lá estará para ultrapassar este 'pequeno' obstáculo. Esta será certamente uma prova que irei fazer num futuro :)
Muitos parabéns pela bravura de todos os R4F e respectivos acompanhantes, que acredito tornaram esta aventura um pouco melhor :)

João Ralha disse...

Miguel,

Dá para perceber quem é o "arrotador", mas parece que houve também um "falador" que, pelos vistos, não se calou durante os 100 km e que continuou sempre a falar no último km, onde tive o grande prazer de vos acompanhar, no final dessa vossa grande "conquista".

Não há dúvidas que o vosso exemplo já inspirou outros companheiro(a)s a também se lançaram nessa aventura nos próximos anos.

Tal como contam até não parece assim tão, tão difícil, mas na verdade deve ser um "empeno" monumental. Certo que vocês os quatro, estavam muito bem no final do Domingo , comparativamente a outros que vimos em Ronda, todos "empenados", com "andares novos".

Contudo, a vossa experiência em termos de planeamento, preparação e consumação da "conquista" certamente que estará disponível para os nossos bravos companheir(a)os que quiserem arriscar fazer tão monumental prova, num ambiente fantástico e com paisagens extraordinárias.

Parabéns a todos pela vossa coragem e determinação.

Runabraços

Ndda disse...

Grande Miguel,

Não podia começar de outra maneira, És um Triplista!!!

Muito orgulho e admiração por Todos... Grande equipa!


Parabéns a Todos e aos incansáveis apoiantes, foi um memorável dia.

Obrigado pela partilha.

46 disse...

Grande relato Miguel.

Parabéns aos bravos e acompanhantes.

Isso é só para campeões. Quando for grande também quero fazer uma coisa dessas...

Obrigado pela partilha. Pelos vistos a prova foi um fartote do principio ao fim ...

AC

José Magalhães disse...

Excelente relato. Miguel tens de voltar mais vezes aos comentários. Fartei-me de rir. As melhoras para o Nuno Tempera.

anci disse...

:-))
Parabéns e <3 a todos!

Paulo Martins disse...

Também me fartei de rir, relato muito bem escrito, depois de ouvir vários relatos quero estar presente para o Ano, se hover vagas...Parabéns a todos...

ManuelaC disse...

Oh Miguel, que relato!!! Extraordinário!! Fartei-me de rir!! (e tu também, certamente, a escrevê-lo!!) Tens que nos brindar mais vezes com a tua escrita! E Parabéns pela prova! Que bom o sentimento de companheirismo e solidariedade que se vive no nosso grupo e tu, mais uma vez, o evidenciaste!!

Teodoro Trindade disse...

Caro amigo aerófago,

A minha vénia pela inspirada redacção a qual só pode ser superada pela experienciação das situações no local.

Penso que todos nós vivemos intensamente estes momentos e foram de tal forma importantes para mim que trocá-los-ia por muito poucas coisas. Os meus agradecimentos a todos os fantásticos supporters (João e Luisa, Joana, Luisa, Elsa e Guida). Sem a vossa participação e extraordinário envolvimento nada teria sido igual.

Obrigado Miguel.
101 Abraços.

Nuno Sentieiro Marques disse...

Tens que nos presentear com mais relatos Miguel, gostei e diverti-me muito com a leitura.

Muito obrigado pela partilha.

Mais um relato desta grande aventura.

Uma vez mais parabéns a todos.

RunaBraços