terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maratona - está feita!



A minha primeira maratona foi mais ou menos o que esperava dela, mas ainda permitiu algumas surpresas. Como por exemplo fazer os dois kms finais com os joelhos dormentes, mas nem me posso queixar porque se doessem é que era chato, não é? Todo um mundo novo. Se fossemos sempre lógicos e prudentes ninguém tentava uma parvoíce destas, que conseguiu dar cabo do canastro a Filípides. Porquê então tentar? Cada um terá a sua justificação mas eu deixei-me levar pela mística da coisa. Uma maratona… ena. Mais do que me sentir parte de um clube restrito, queria saber se conseguia correr sempre e acabar confortável. Mentia se dissesse que o tempo final me era indiferente, por isso apontei vagamente para as 4h como marca para me deixar contente. Mas tinha muito respeito pelos "monstros" e "paredes" e por isso decidi avançar de forma cautelosa.

A irmandade laranja fez-se sentir antes e no dia da prova, tal como outros loucos que correm e com quem me vou cruzando em provas e treinos, e que se vão tornando companhia da boa. É importante esta envolvência e torna o ambiente muito especial. Estive sempre bem rodeado mas a primeira parte da prova foi feita principalmente com dois super atletas, o Alfredo Falcão e o Gonçalo Fontes de Melo. Devo grande parte da minha prova a eles, conseguimos seguir soltos e em amena cavaqueira o que me permitiu uma gestão boa do esforço. Não é um percurso bonito, o que se faz até São Sebastião, mas depois do El Corte Inglés conseguimos lavar um bocadinho a vista. Perto da rotunda até pude matar um bocadinho as saudades dos trilhos - uma parte empedrada fazia lembrar uma calçada romana. Mais ou menos. Nem por isso, mas uma pessoa faz o que pode, não é? O alcatrão é mesmo uma seca, disso não me livro. A descer a Avenida perguntei pelo balão das 4h mas pelos vistos tinha ficado para trás. Ainda me preocupei um bocado, mas como seguíamos confortáveis… enfim.

Pouco depois de passarmos pela família do Alfredo (grande festa) dávamos a volta para trás em Algés, e aqui teve lugar o ponto alto da minha maratona. O sorriso do Ricardo, que vinha de cadeira de rodas a ser empurrado pelo Carlos Lopes, passou por nós a grande velocidade e foi efusivamente cumprimentado. Uma iniciativa fantástica a que todos estávamos atentos. Mas no viaduto em frente à Fund. Champalimaud o Carlos precisou de "mudar a água às azeitonas" o que deixou o Ricardo em prova a uma velocidade menor e em maior esforço. Sem pensar arranquei em direcção a ele e perguntei se podia dar uma ajuda por uns metros, o que o Ricardo aceitou com boa disposição. Foram uns metros em que se calhar o atrasei (a velocidade era mesmo assim louca), mas em que tive a sorte e o privilégio de poder participar um bocadinho numa iniciativa que tanto me impressionou. Com isto larguei o Alfredo e o Gonçalo, e fiquei a matutar no que me tinha dito o José Guimarães uns kms antes - "nem vais a suar…". Era altura de forçar e arriscar um bocado.

É um equilíbrio difícil. Querer acabar com um mínimo de conforto uma prova, e não sentir no fim que podia ter dado um bocado mais. Mas a aposta estava feita, em cima do joelho e sem estratégia, e podia ser que corresse bem. Caramba, estava um dia perfeito para correr, tinha amigos por todo o lado e sentia-me bem. Aumentei bastante o ritmo (ou assim me pareceu) e fiz a segunda metade da prova em menos tempo que a primeira, o famoso split negativo (as coisas que uma pessoa aprende). Fui passando muitos atletas e amigos e por volta do km 35 deu-se um bocadinho o vai ou racha. Ia chegar à Alm. Reis cheio de balanço e havia de a fazer toda a correr. O que para meu espanto acabou por acontecer. Senti que voava baixinho e devia ter os cantos da boca ao pé das orelhas de tanto rir. Mas talvez fosse pouco mais depressa que um coxo e apenas com cara de parvo, não sei. No Areeiro senti que as "paredes" e "muros" tinham ficado para trás mas o corpo começava a pagar a tonteria. Não sabia que podia correr com os joelhos dormentes, mas foi o que fiz porque comecei a olhar para o relógio. Quantos minutos conseguia eu tirar às 4 horas? 15 minutos e 2 segundos, a acreditar no relógio da meta.

Sim, emocionei-me um bocadinho. E senti-me vivo, com saúde para dar e vender. Sou a prova de que qualquer pessoa consegue correr uma maratona e ultrapassar os seus limites, e senti-me orgulhoso da minha primeira. Algo me diz que mais virão, apesar de ficar provado que o alcatrão faz mal ao organismo. Fiquei com umas saudades da serra e da lama que não dá para descrever. No fim, a festa laranja que tanto me alegra. Todos os resultados são celebrados como recordes do mundo, o que torna os run4fun num grupo de pessoas onde todos são importantes e parte do pelotão de malucos que correm. Sabe bem ter quem nos compreenda à nossa volta.

Abutres anyone? Ou a São Silvestre da Praia da Rocha...

Miguel Serradas Duarte.

P. S. - O meu nome não aparece na listagem da xistarca, mas eu juro que fiz mesmo aqueles kms todos. Mandei email a pedir a correcção, pode ser que tenha sorte...

12 comentários:

Orlando Ferreira disse...

Muitos parabéns Miguel.
Uma vez mais um relato muito animado e cheio de bom humor.
Certamente que a distância não seria o factor surpresa nem tão pouco as várias subidas e descidas mas realmente a paisagem e os ruídos (entendam-se buzinadelas !!!) são bem diferentes.
Num outro cenário vais ver que até vais gostar de repetir a dose.
Parabéns.

Miguel San-Payo disse...

Muitos parabéns. Agora só falta fazer uma 2ºmaratona para te tornares MARATONISTA

Miguel San-Payo disse...

Muitos parabéns. Agora só falta fazer uma 2ºmaratona para te tornares MARATONISTA

Nuno Sentieiro Marques disse...

Obrigado pela partilha Miguel.

Bem escrito, divertido e emocionante...gostei muito de ler o Teu relato.

Parabéns pela estreia...e que estreia.
Resultado fantástico, num trajecto que não é fácil.

Runabraços

46 disse...

Miguel,

fartei-me de rir com o teu relato. Brilhante.

Mas olha que para quem se queixa do alcatrão, o teu tempo para a primeira maratona foi mesmo muito bom. Acho que nos andas a enganar e gostas mais do alcatrão do que nos queres fazer querer :)

De qualquer forma, muitos parabéns que bem os mereces.

AC

João Ralha disse...

Parabéns Miguel

Mais um inspirado e bem humorado relato, de uma grande proeza.

Aliás, não esperava outra coisa de alguém que fez em grande estilo o Grande Trail da Serra d´Árga. Esta maratona ao pé dessa prova não é mais difícil, apenas é diferente, como agora sabes!!

E espero ver-te numa próxima, que tenha mais gente e maior apoio. Sevilha é uma boa opção, ou outra em Espanha.

Runabraço

Ndda disse...

Parabéns pelo texto Miguel,

Uma grande aquisição R4F.
Acho que irás melhorar bastante.

Temos corredor para todos os pisos...

Nos Abrutes a prova é dos 9!

Até lá RunAbraço,
NDA

José Carlos Melo disse...

Parabéns Miguel pelo objetivo atingido no alcatrão. Este relato é de quem tinha uma ideia muito aproximada do que se ia passar, sem motivo para surpresas, nem muros nem nada. Afinal, tens acumulado experiência em provas com percursos que mais gostas, e até muito mais difíceis. Em todo o caso, mesmo sem uma estratégia prévia bem definida, vê-se que aplicaste uma estratégia que foi sendo adaptada “ad-hoc” com a evolução da distância.

De realçar o teu potencial de evolução nas próximas Maratonas.

E claro que a tua classificação tem que aprecer, ainda para mais numa estreia na modalidade. Existem fotos, testemunhos, tudo o que for necessário… a menos que o teu “chip” tenha sentido o “muro”. :)

Ah Claro… nos Abutres também seremos muitos.

RunAbraço.

Teodoro Trindade disse...

Parabéns Miguel,

Em rigor não se pode considerar uma estreia no distância, pois quem faz uma maratona na serra também a faz na cidade.

É bom variar, é bom experimentar novos desafios, é bom participar em convívios como este. Até há quem diga que também é saudavel ...

Um abraço.

Miguel Serradas Duarte disse...

Os meus tempos podem realmente melhorar, mas nem estou preocupado com isso. Maratonas só novas, e em boa companhia. E a serra tem realmente outro encanto... ;).

nemagiev disse...

Parabens...uma estreia fantástica como se já lá andasse há muitos anos

Paulo Marcos disse...

Tens mais uma testemunha que te viu fazer aqueles kms todos!
Espirito de humor, sentido de camaradagem, treino, muito treino, atitude, tudo tu tiveste. Até pareceu fácil...!
Parabéns!