domingo, 9 de dezembro de 2012



A minha primeira maratona  (Joana Peralta)

Mais do que a relatar, vou enquadrar a minha prova. Nunca me considerei uma pessoa desportiva e muito menos atleta. Mas lembro-me de ser pequenina e de ver a Maratona na televisão, e ficar fascinada. Como é que era possível que aqueles haver pessoas a correrem aquela distância, quase Lisboa- Ericeira?

A primeira vez que corri foi com a minha amiga Vanda por brincadeira, na Ericeira, com uns 17 anos. Fazíamos uns passeios ocasionais para mantermos a forma, e era muito divertido. Casei aos 18 com um desportista, e ele incentivou-me a correr. Comecei a correr sozinha pelas ruas de S. João do Estoril aos 19 anos, e adorei. Mas tive um acidente ao fim de muito poucas corridas… levei com um portão de ferro de uma garagem quando estava a correr num passeio e fiquei estendida sem sentidos no chão. Fui levada para o hospital com um traumatismo craniano e nunca mais corri na rua.

Voltei a correr muitos anos mais tarde no ginásio. Inscrevi-me num ginásio em 2000 e nunca de fazer exercício físico desde então. Fazia 4 a 7 vezes por semana, e um dia um dos meus professores disse-me: “vejo-te cá muito, mas gostava de te ver correr numa passadeira 40 minutos a 10 km/h sem parar”. Fiquei a pensar naquilo. Pensei “ah, com a minha preparação, consigo de certeza”. Estava aí em 2007-2008. Comecei a correr na passadeira. Claro que, a primeira vez aguentei uns 10 ou 15 minutos, a 8 km/h e “ia morrendo”. Mas rapidamente comecei a correr 1 hora a 8km/h, depois 9, depois 10. E fiquei-me por ali. Sempre na passadeira. Mas era um sacrifício. Era chato… Só que gostava da sensação que tinha a seguir.

Enchi-me de coragem e recomecei a correr na rua. Na Ericeira, claro, onde é mais seguro (e onde eu não tinha ginásio aos fins-de-semana ou nas férias). Mas nada de especial… treinos de 30 minutos, ir à Foz e vir. Correr distância lá é chato. Sempre foi, e ainda é. Ser mulher e mãe não ajuda. Requer muita disponibilidade…

Correr mais “a sério”, ou seja, com mais frequência, comecei no início de 2011, com o meu divórcio. De raiva. Na Expo. Sozinha. Cerca 9-10 km em 1 hora, done (estimativas de distância via Google Maps, pois não tinha nada que medisse distâncias comigo). Por mim, estava muito bem… Corria aí duas a três vezes por semana. Quando instalei o Runkeeper no Verão do ano passado progredi e a velocidade aumentou para os 11 km/h.

Acabou o Verão e queria correr. Voltei à passadeira e percebi que nunca mais correria indoors. Mas correr na rua sozinha à noite era coisa que não me agradava. Então pedi ajuda aos Run 4 Fun. E nesse dia o César lá me convenceu a ir treinar com um grupo de malucos essa noite... O César, o Teodoro, o Jorge Esteves, o Alfredo, o Tempera, o Serafim, o Zé. Esqueci-me alguém? Só sei que levei com um baptismo de mais de 20km repartido em 3 pequenos treinos: Vela Latina-Largo do Camões, Luna Run, Largo do Camões – Vela Latina! Aqueles últimos quilómetros no regresso, depois das docas, pareceram-me intermináveis. No entanto, não parei. E no final fiquei muito orgulhosa. Mais… nessa noite aconteceu-me uma coisa extraordinária: apercebi-me que conseguia correr muito mais do que alguma vez pensei!

Os Run 4 Fun “adoptaram-me”, embora nem sempre conseguia (nem consigo) dedicar-me o tempo que quero a correr. Apareço quando posso, e as outras mães divorciadas entendem-me perfeitamente.

Em Setembro deste ano aventurei-me no treino Expo-Católica, Corrida da Católica, Católica-Expo e adorei! Senti-me bem durante e no final. Não gosto de correr depressa. Nunca gostei. Custa muito. Mas nesse dia apercebi-me que teria corrido mais… e a Maratona ficou-me plantada num cantinho recôndito do cérebro (porque no coração, ela sempre esteve).

Restou-me arranjar pernas e treinar a cabeça. As pernas foram mais difíceis, porque ainda apanhei um susto no joelho direito uns dias depois desse longão, e fiquei “de molho” durante umas semanas. Fui a um médico ortopedista, pai da minha melhor amiga, que me conhece de bebé perguntou-me na consulta:

-“Joana, fizeste algum esforço grande nessa semana? Alguma coisa de especial?”…

-“Bem, tio, sou capaz de ter corrido uns… 30 kms assim meio à bruta…”

De olhos arregalados, deu-me um anti-inflamatório e indicações de que se não passasse teria de fazer uma RM. “Posso correr?” Perguntei eu… e os olhos iam-lhe saltando das órbitas. “Se te dói, não!!!” Bem, escusado será dizer que corri. Corri a Meia do Rock n’ Roll e de Amesterdão. Pouco depois lá fiz a RM… foi carga!

Entretanto a ideia da Maratona foi germinando. Andava a correr mais do que nunca com o núcleo Sintra-Oeiras. Sentia-me bem e capaz… Entretanto a Mónica também começou a falar comigo sobre fazermos a prova. Decidi que se não tivesse lesão, iria corrê-la já em Dezembro. Porque não?

Restou-me alterar a inscrição de Meia para Maratona e fazer 3 mais longões. O primeiro de 30km com os Run 4 Fun, o segundo de 33km sozinha (considero essencial habituarmo-nos a correr sozinhos) e o terceiro de 35km com o Nuno Tempera.

Agora a prova em si.

Não estive nada nervosa. Estive contente, uns dias antes e hoje. Adoro correr devagar mas muito tempo. Estava em boas condições físicas, embora nestes últimos quase 2 meses tenha engordado 2,5kg por causa do tipo de treinos (longões abrem-me o apetite e requerem mais descanso do que estou habituada). Podia não fazer um tempo espectacular (as 4 horas de que toda a gente fala), mas era a minha prova. Era a minha corrida, tal como me dá gozo: a ouvir música, a cantar, a rir, a meditar. Ainda por cima acompanhada por todos, e pelo Nuno.

Na véspera dormi bem, acordei bem-disposta e estive sempre bem-disposta durante a corrida. Não gosto muito é de falar durante treinos longos (excepto de jóias, César). Gosto de ir “em transe”… a pensar, a cantar ou a ouvir o corpo para me corrigir. Falar, só nos treinos.

E pronto, foi assim que corri a minha primeira maratona. Vou correr muitas mais, haja saúde! Mas sempre como me dá prazer ou seja, descontraidamente. Claro que tenho alguns pormenores técnicos a ajustar. Mas com quilómetros nas pernas, os resultados virão.

Continuo a não me considerar uma atleta, apenas gosto de correr.

Agradeço aos Run 4 Fun por tudo. Sem vocês, por diversas razões, nunca teria conseguido este feito. E repito os agradecimentos que fiz no FB.

Joana Peralta

15 comentários:

Nuno Sentieiro Marques disse...

Obrigado pela partilha Joana.

Belo e histórico relato.

Tem sido um prazer ver-te evoluir e poder contar com a Tua fantástica companhia nos muitos treinos que fizemos em conjunto.

O que conseguiste atingir em tão curto espaço de tempo, foi simplesmente fantástico.
Muitos parabéns.

Vamos continuar a treinar e preparar as próximas aventuras :)

Runbeijo

46 disse...

Parabéns Joana.

Gostei muito de ler o teu relato. Inspirador.

É claro que és uma atleta e de grande nível.

Quantas mulheres tens a fazer a maratona em Portugal e no mundo?

Continua assim.

Obrigado.

AC

Carlos Lopes disse...

Adorei o texto Joana. Queria agradecer a todos elementos do Run 4 Fun, as palavras de incentivo que tive durante a maratona. o meu muito obrigado

Jorge Branco disse...

Se quem corre a Maratona não é atleta o que será um atleta :)
Parabéns e que venham muitas mais!

Patrícia Calado disse...

Que lindo relato, Joana!

Eu lembro-me de ti no meu primeiro treino com os Run 4 Fun, em meados de Janeiro.

Gostei logo de ti e claro que o tema da conversa foi"casamentos, divórcios e relações afins"! :)

E achei que corrias, que corrias bem!

Foi com muito orgulho que te vi cruzar a meta ontem, passados 42 km!

Espero acompanhar-te em muitas corridas futuras, longas ou curtas, rápidas ou lentas, em estrada ou em trilhos!

E podes sempre usar os meus elásticos!

Um grande beijinho!

Patrícia

Rui Ralha disse...

Grande Joana! Parabéns. És atleta?!... não interessa nada, na minha modesta opinião. O que importa é que tenhas prazer naquilo que fazes, sejam os 10km,a Maratona ou uma ultra. Os treinos são mais uma fonte de prazer que antecipa e se prolonga pela corrida corrida seguinte. Have Fun, keep running.

João Ralha disse...

Parabéns Joana,

Pela maratona e pelo belo relato que nos fazes.

Uma foto tua fica sempre bem e escolhi uma que, espero, gostes!!!

O teu exemplo e o da Mónica vão certamente ser o "incentivo" que faltava a mais umas quantas meninas da nossa equipa, para também se decidirem a fazer a "big one".

E agora venham as próximas que está já está.

Bjns e runabraços

Miguel San-Payo disse...

Muitos parabéns. Agora já só falta fazeres a 2ªmaratona para te tornares MARATONISTA.

José Carlos Melo disse...

Parabéns uma vez mais, Joana!

O teu relato é espetacular e emocionante do início ao fim.

A tua evolução tem sido surpreendente, nota-se nos treinos e provas. Com a preparação física e psicológica que estás a obter, aplicando estratégias para te aproximares às velocidades que obtens em distâncias menores, o teu potencial de evolução é grande.

Agora goza esta sensação que sentiste ao terminar a Maratona. A seguir, começa a preparar a próxima.

RunBjs.

Ndda disse...

Fantástico Joana,

Compreendo perfeitamente as dificuldades e a falta de tempo.

Depois daquele longão da Católica cresces-te bastante como corredora.

Que determinação e dificuldade demonstrados.

Uma palavra de reconhecimento ao NT, o padrinho...

Correr está mesmo no Teu sangue.

Venha a próxima e lá fora, vais arrasar!


RunBeijo,
NDA

Teodoro Trindade disse...

Obrigado Joana, és um grande exemplo para todos. Não tens limites e estou certo que esta vitória foi só uma etapa. O que vem a seguir?

Muitos parabéns, é um enorme prazer correr a teu lado (o Nuno que o diga).

Bjs

Joana Peralta disse...

Obrigada a todos, só agora é que me lembrei de vir cá ver! :) Bjs!!! NEXT!!
Joana Peralta

Joana Peralta disse...

Obrigada a todos, só agora é que me lembrei de vir cá ver! :) Bjs!!! NEXT!!
Joana Peralta

nemagiev disse...

Parabens grande atleta...foi uma maneira diferente de ler a maratona...mais o antes do que o durante...agora antes durante e depois claro que és maratonista e atleta

Paulo Marcos disse...

Gostei muito do relato. E da determinação. "Now, you are one of the specials ones".
Bendita a hora em que te "recrutei" numa vigilância na Catolica...!
Que venham mais, sempre com o mesmo espírito! E que tragas mais contigo!